Você sabia que o baiano de Feira de Santana Luiz Caldas é considerado o precursor (ou o Pai!) do Axé Music, gênero musical que criou um novo e gigante movimento na Bahia – e depois no Brasil inteiro – na década de 1980? Aniversariante do dia, o artista tem uma importância ímpar para a música popular brasileira e hoje relembramos o porquê!
Luiz Caldas e o Axé Music
Cantor, compositor, multi-instrumentista e produtor musical, Luiz César Pereira Caldas começou cedo na música: aos sete anos, fez sua primeira apresentação como integrante de uma banda mirim e, aos dez, já viajava em turnês com bandas da cidade, aprendendo a tocar diversos instrumentos.
No início dos anos 70, Luiz Caldas foi morar em Vitória da Conquista e ganhou a vida trabalhando em alguns comércios da cidade, exercendo a função de serviços gerais. Mas, nas horas vagas, tocava no conjunto musical de um famoso músico da época, chamado João Faustino, da cidade baiana de Jequié.
Depois disso, o baiano passou a ganhar espaço no cenário musical de Salvador, onde se apresentava no Circo Troca de Segredos e tocava em agremiações de Carnaval.
Foi por esta época que Caldas tornou-se o inventor de um ritmo que misturava o pop com o reggae, toques caribenhos, ijexá, frevo e samba, e que ganhou o apelido de “Deboche” (ou também chamado “Fricote”, por conta do nome de uma música sua que fez muito sucesso e foi a precursora desse ritmo, sobre a qual vamos falar daqui a pouco).
Esse ritmo foi evoluindo para outros tantos ritmos lançados no carnaval baiano e somando-se também com o samba-reggae, o merengue, o forró, o pagode baiano, o samba duro, os ritmos do candomblé, o pop rock e com outros ritmos afro-brasileiros e afro-latinos, e consolidando-se no popular estilo ou gênero musical que atualmente é denominado como Axé Music, influenciando uma geração de artistas baianos e mudando para sempre a história do carnaval de Salvador.

O carnaval de Salvador
Antes disso, para chegarmos no carnaval de Salvador como conhecemos hoje, precisamos voltar às suas origens, lá na década de 1950, mais precisamente em 1951, quando a dupla Dodô e Osmar começou a tocar o frevo pernambucano em guitarras elétricas de produção própria – as quais batizaram de “Guitarras Baianas” – em cima de uma Fobica (um Ford do ano de 1929). Ali, nascia o Trio Elétrico.
Mais tarde, em 1975, Moraes Moreira, recém saído dos Novos Baianos, teve a ideia de subir no trio – que antes era apenas instrumental – para também cantar, tornando-se o primeiro cantor ou puxador de trio elétrico do país.
A partir da década de 1960, paralelamente ao movimento dos trios, aconteceu também a proliferação dos blocos afro na Bahia: Filhos de Gandhi (do qual Gilberto Gil faz parte), Badauê, Ilê Aiyê, Muzenza, Araketu e Olodum. Eles tocam ritmos afro como o ijexá e o samba, utilizando alguns instrumentos musicais de percussão.
O Axé Music de Luiz Caldas chega somente em 1980, quando uma turma de músicos baianos foi contratada pelo estúdio WR, do empresário e produtor musical Wesley Rangel, que tornou-se muito famoso por produzir os artistas de Axé Music e de Trio Elétrico em Salvador.
Luiz Caldas passou a fazer parte da banda Acordes Verdes, formada neste estúdio e que já contava com o arranjador Alfredo Moura, um dos principais arranjadores do gênero, e o baterista Cesinha. Mais tarde, Carlinhos Brown também entrou para a banda, dando início ao chamado movimento do Axé Music.
Antes, em 1979, Luiz Caldas já havia integrado o Trio Elétrico Tapajós e teve sua primeira canção gravada em um disco: “Oxumalá”. Em 1981, o artista participou do disco “Jubileu de Prata”, também do Trio Elétrico Tapajós, que conta com nove canções de sua autoria.
Em 1983, o Caldas lançou um disco compacto, junto com a banda Acordes Verdes, que conta com duas músicas suas: “O Beijo” (parceria com João Batera) e “Como Um Raio”.
Sem mais “Fricote“
Em 1985, Luiz Caldas lançou o seu primeiro disco solo autoral, “Magia”, que conta com o primeiro grande sucesso nacional daquela cena musical de Salvador: a canção “Fricote”, composta em parceria com Paulinho Camafeu, sobre a qual já falamos aqui.
O ritmo naquela época era chamado de Deboche, e havia sido criado por Alfredo Moura e Carlinhos Brown. O arranjo inovador e de alta qualidade técnica foi marcante para que a canção (de apenas dois acordes) se tornasse um dos maiores sucessos brasileiros, um verdadeiro hit, espalhando-se por todo o país, estourando nas rádios brasileiras e virando um marco para o Axé Music.
Acontece que de alguns anos para cá – com toda a razão do mundo – Luiz Caldas decidiu excluir a “Fricote” de seu repertório. Isso porque, apesar da importância do ritmo para o gênero Axé, a letra da música é considerada altamente racista e também machista.
Em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, em fevereiro de 2025, o cantor declarou por que não canta mais a canção há anos: “O artista, de certa forma, ele conta o que vê, é um cronista. A música ‘Fricote’, quando eu compus, foi essa canção que levou o Axé Music. Eu acho o seguinte: você tem que viver a época em que você está vivendo, respeitar as regras. Acho desnecessário cantá-la, já que tenho tantos outros sucessos.”.
Outros sucessos do disco solo de estreia de Luiz Caldas são as músicas: “Sonho Bom” (parceria com Alfredo Moura, Silvinha Torres e Paulinho Caldas), “Visão do Cíclope” (parceria com Jeferson Robson e Carlinhos Brown) e a faixa-título, “Magia” (apenas Caldas).
Paixão Nacional
Logo, Luiz Caldas passou a ser presença constante nos principais programas de televisão da década de 1980, principalmente no “Cassino do Chacrinha”, que funcionava como uma vitrine musical pros artistas da época. Com seu visual icônico e suas músicas dançantes, o baiano virou paixão nacional.
Em 1986, o artista lançou o seu segundo disco, “Flor Cigana”, que conta com sucessos como: “Eu Vou Já” e a faixa-título (parceria com Ricardo Luedy).
No ano seguinte, o artista lançou o disco “Lá Vem o Guarda”, que traz o super hit “Haja Amor” (parceria com Chocolate da Bahia), uma das canções mais famosas de sua carreira.
Em 1989, o disco “Timbres” traz o grande sucesso “Tieta”, de Paulo Debétio e Boni, que torna-se tema de abertura da novela de mesmo nome, da Rede Globo, e consagra-se como outro grande hit.
Luiz Caldas seguiu lançando um álbum – e um sucesso! – atrás do outro, até os dias atuais. O artista vendeu mais de 2 milhões de discos e influenciou uma geração de artistas baianos e de trio elétrico que vieram depois.
Em 1999, Caldas lançou o álbum especial “15 Anos de Axé – Luiz Caldas e Convidados”, que traz grandes clássicos do gênero difundido por ele a partir dos anos 80, com a participação de artistas que foram amplamente influenciados por Caldas e que viraram referências no Axé Music, como Timbalada, Chiclete com Banana e Gilmelândia.
Produção intensa
A partir do ano de 2010, Luiz Caldas começou com um projeto ousado e inovador. Neste ano, lançou – simultâneamente – 10 discos de estilos diferentes, com 130 canções inéditas. O projeto envolve vários gêneros, como o pagode, o forró, a MPB, a música romântica, o hard rock e a música instrumental, sendo um dos álbuns dedicado aos povos indígenas, com letras inteiramente em Tupi.
Em 2013, o artista repetiu essa fórmula e lançou mais 12 discos (um por mês) em seu site oficial, com mais de 500 canções inéditas lançadas ao longo do ano.
Desde então e até 2024, Luiz Caldas repetiu este feito constantemente: lançou um disco por mês em seu site oficial, disponível gratuitamente para download e também nas plataformas digitais, com gêneros e estilos variados, mostrando toda a sua versatilidade, seu talento e criatividade.
Seu álbum mais recente é “Na Beira do Mundo”, de 2025.
Para conhecer a obra e a trajetória completa de Luiz Caldas, escute o episódio do Acervo MPB especial sobre o artista. Uma série de áudio-biografias exclusiva da Novabrasil, que conta a história de grandes nomes da MPB de um jeito que você nunca viu.



