Rir de cócegas pode parecer apenas uma brincadeira entre irmãos ou pais e filhos, mas por trás dessa reação aparentemente simples há uma intrincada rede de estímulos neurológicos, respostas emocionais e até funções evolutivas. Desde a Grécia Antiga, pensadores como Aristóteles, Galileu e Darwin tentaram entender por que sentimos cócegas e por que não conseguimos provocá-las em nós mesmos. Hoje, a neurociência avança sobre essas perguntas e revela: as cócegas são uma resposta sofisticada do cérebro humano.
“Há dois tipos principais de cócegas. A mais leve, chamada knismesis, funciona como um alerta — como quando um inseto toca a pele. Já a gargalesis é a cócega que gera riso e movimentos de defesa, normalmente provocada por outra pessoa em áreas como costelas ou pés”, explica o neurocirurgião Cesar Cimonari de Almeida, membro da Brazil Health.
Resposta tátil, emocional e social
A origem da sensação começa na pele, com receptores sensoriais que enviam sinais ao cérebro. O estímulo passa pelo tálamo e chega ao córtex somatossensorial, onde é interpretado como toque. Mas outras áreas também entram em ação, como o sistema límbico e a amígdala, que estão ligadas às emoções. “Por isso, o toque pode provocar riso ou incômodo. O cérebro reage como se fosse uma surpresa — ativando áreas de prazer e defesa”, afirma o especialista.
As cócegas também têm função social. Em crianças, estimulam reflexos e limites corporais. Em adultos, reforçam laços afetivos. “As regiões mais sensíveis costumam ser também as mais vulneráveis do corpo. A gargalhada, nesse caso, é um reflexo misto de alerta e conexão”, diz Cimonari. Charles Darwin chegou a afirmar que as cócegas só funcionam entre pessoas que compartilham um vínculo de confiança.

Por que não conseguimos provocar cócegas em nós mesmos
Segundo o neurocirurgião, o motivo é neurológico. “O cerebelo, parte do cérebro responsável por coordenar movimentos, prevê quando vamos nos tocar. E essa antecipação neutraliza a resposta”, explica. Pesquisas mostram que a sensação só aparece quando há imprevisibilidade — o que só acontece quando o toque vem de fora.
A ciência ainda investiga as cócegas em outras espécies e em contextos clínicos. Estudos mostram que ratos e chimpanzés também reagem a cócegas com sinais semelhantes ao riso. Já em humanos, pesquisas com pacientes com esquizofrenia ou autismo ajudam a compreender como o cérebro diferencia estímulos internos e externos, e como reage emocionalmente a eles.
“Parece uma simples brincadeira, mas as cócegas nos ajudam a entender o cérebro, os vínculos sociais e até mecanismos de proteção do corpo”, conclui o médico.



