Mais de 300 milhões de pessoas vivem com depressão no mundo. O Brasil lidera o ranking de ansiedade da OMS e soma mais de 14 mil suicídios por ano. Em paralelo, uma em cada seis pessoas usa medicamentos psiquiátricos. Diante desse cenário, a ciência volta seus olhos para substâncias até recentemente marginalizadas: os enteógenos. Ou psicodélicos.
“Vivemos uma pandemia de sofrimento psíquico, e os tratamentos tradicionais nem sempre oferecem alívio real. É preciso buscar alternativas que integrem corpo, mente e espírito”, afirma o psiquiatra Wilson Gonzaga, que acompanha de perto os avanços da psiquiatria psicodélica.
Da tradição ancestral aos laboratórios de ponta
Os enteógenos — como a psilocibina (presente nos “cogumelos mágicos”), ayahuasca, LSD, iboga e peiote — têm origens milenares, usados por povos originários em rituais de cura e expansão da consciência. Mas foi só nas últimas duas décadas que eles voltaram ao centro da ciência, após décadas de proibição motivada pela política de guerra às drogas.
Hoje, instituições como o Imperial College London, Johns Hopkins e universidades brasileiras retomam os estudos com foco no tratamento de depressão resistente, estresse pós-traumático, ansiedade e até ideação suicida. “Essas substâncias permitem ao paciente acessar conteúdos emocionais profundos de forma segura, quando bem conduzido por um terapeuta preparado”, diz o Dr. Gonzaga.
Como atuam no cérebro
A ação dos enteógenos ocorre principalmente em dois processos: neurogênese (formação de novos neurônios) e neuroplasticidade (reconexão de circuitos neurais antigos). Essa reorganização permite ressignificar traumas, desconstruir padrões de sofrimento e reconstruir a narrativa interna do paciente.
Outro fenômeno observado é a suspensão temporária da chamada “rede neural padrão”, estrutura relacionada ao ego, controle e planejamento. Isso permite uma vivência profunda de dissolução do eu, semelhante à alcançada por mestres meditadores. “Nesse estado, é possível olhar para si com menos julgamento, reprocessar dores emocionais e reorientar o sentido da vida”, explica o psiquiatra.
Experiências com valor terapêutico
Estudos com psilocibina revelam que cerca de um terço dos participantes relatam ter vivido a experiência mais significativa de suas vidas. “Esses relatos não são sobre euforia, mas sobre insights transformadores, reconciliações internas e um profundo senso de conexão com a existência”, pontua Gonzaga.
Mas o uso não deve ser banalizado. “Não se trata de usar por conta própria. O potencial terapêutico depende da substância certa, da dose adequada, do ambiente controlado e de um acompanhamento profissional especializado. Caso contrário, pode haver risco de gatilhos psíquicos indesejados.”
Um novo paradigma: da medicação à reconexão
Para muitos especialistas, os enteógenos oferecem mais do que um ajuste químico no cérebro. “Eles convidam o paciente a reencontrar um propósito, a reatar laços com a própria alma. É nesse ponto que ciência e espiritualidade, muitas vezes distantes, começam a dialogar”, conclui o Dr. Wilson Gonzaga.



