Raul Pompeia é lembrado principalmente pelo clássico O Ateneu, romance naturalista de 1888 que marcou época. Mas poucos conhecem a face poética desse escritor do século 19. Pompeia foi pioneiro ao escrever poemas em prosa – textos literários que, mesmo sem verso e rima, são poesia.
Seus poemas rompem barreiras entre gêneros literários e antecipam tendências do Simbolismo e Impressionismo.
Quem foi Raul Pompeia
Raul d’Ávila Pompeia nasceu em 12 de abril de 1863, em Angra dos Reis (RJ). Desde cedo escrevia em jornais estudantis. Essa experiência em um rígido colégio interno no Rio de Janeiro marcaria profundamente sua obra anos depois, Pompeia transformou as memórias desse internato no romance O Ateneu (1888), um dos marcos do Naturalismo brasileiro.
Formado em Direito, atuou também como jornalista e participou ativamente dos movimentos abolicionista e republicano. Em 1894, foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional, mas envolveu-se em polêmicas políticas e artísticas. Nessa época, um desentendimento público com o poeta Olavo Bilac quase resultou em um duelo, e Pompeia acabou isolado no meio literário.
Em 25 de dezembro de 1895, ao enfrentar uma forte depressão, suicidou-se aos 32 anos. Raul Pompeia deixou uma obra breve, porém diversa: além do célebre romance O Ateneu, escreveu contos, crônicas, sátiras políticas e uma coleção singular de poemas em prosa que só seriam plenamente reconhecidos décadas depois.
Os maiores poemas de Raul Pompeia
Apesar de não ter escrito poesia em versos tradicionais, Raul Pompeia dedicou grande parte de sua vida literária à criação de poemas em prosa. Sua coletânea Canções sem metro reúne 33 textos poéticos pioneiros, nos quais o autor experimenta linguagem, sons e imagens de forma inédita.
1. Canções sem metro (1900) – A coletânea inovadora de poemas em prosa
Publicada postumamente em 1900, Canções sem metro é a obra que consagrou Raul Pompeia como precursor do poema em prosa no Brasil. Esse livro reúne 33 poemas em prosa, escritos entre 1881 e 1895.
Durante quase doze anos, o autor lapidou incansavelmente esses textos, chegando a ilustrá-los com desenhos de próprio punho. O resultado foi um projeto literário que rompeu com as fronteiras entre prosa e poesia em pleno fim do século 19.
Canções sem metro reflete uma rica combinação de estilos: embora Raul Pompeia seja geralmente associado ao Naturalismo, a crítica observa que sua prosa poética é “ricamente sonora e imagética”, aproximando-se mais do Simbolismo e do Impressionismo.
Não por acaso, muitos desses poemas trazem epígrafes de autores simbolistas como Charles Baudelaire, indicando as influências modernas que Pompeia assimilou.
Canções sem metro ficou anos esquecida pelo público – ofuscada pela fama de O Ateneu, mas hoje é reconhecida como uma contribuição original à literatura brasileira. Por muito reduzido ao título de “autor de um livro só”, obras como Canções sem metro mostram que Pompeia tinha uma produção digna de redescoberta e pode ser o ponto de partida para quem deseja conhecer os maiores poemas do autor.
2. Vibrações – Cores e emoções em sinfonia
Um dos conjuntos de poemas em prosa mais marcantes de Canções sem metro é Vibrações. Nele, Raul Pompeia constrói uma verdadeira sinfonia de cores e emoções. Cada texto de Vibrações recebe o nome de uma cor seguida de um sentimento ou ideia relacionado a ela: “Verde, esperança”, “Amarelo, desespero”, “Azul, ciúme”, “Roxo, tristeza”, “Vermelho, guerra”, “Branco, paz”, “Negro, morte” e “Rosa, amor”.
Por meio dessas cores simbólicas, Pompeia explora os estados da alma humana – da esperança serena associada ao verde até a dor da perda figurada no negro da morte. Os poemas de Vibrações impressionam pela linguagem sensorial e pelo tom ora exaltado, ora melancólico, refletindo fortes influências do Simbolismo.
Não por acaso, o primeiro desses poemas traz como epígrafe um verso de Baudelaire que fala da correspondência entre sons, cores e perfumes, uma referência direta à sinestesia simbolista.
A crítica moderna destaca a habilidade estilística de Pompeia nesses textos: há “pessimismo, emoções fortes, espanto, morbidez, alucinações”, numa atmosfera que evoca tanto Baudelaire quanto Edgar Allan Poe.

VIBRAÇÕES
Comme des longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se repondent.
C. BAUDELAIRE
Vibrar, viver. Vibra o abismo etéreo à música das esferas; vibra a convulsão do verme, no segredo subterrâneo dos túmulos. Vive a luz, vive o perfume, vive o som, vive a putrefação. Vivem à semelhança os ânimos.
A harpa do sentimento canta no peito, ora o entusiasmo, um hino, ora o adágio oscilante da cisma. A cada nota, uma cor, tal qual nas vibrações da luz. O conjunto é a sinfonia das paixões. Eleva-se a gradação cromática até à suprema intensidade rutilante; baixa à profunda e escura vibração das elegias.
Sonoridade, colorido: eis o sentimento.
Daí o simbolismo popular das cores.
VERDE, ESPERANÇA
A impetuosa alegria da terra, à passagem de Flora, a primavera verde, compromisso maternal do outono e da opulência.
Náufragos no mar.
Sem pão, sem rumo. Em roda, o gume afiado do horizonte, a reverberação do sol nas águas e o silêncio solene da calmaria. A vela do barco, flácida, pendente — imagem do abatimento. Ligeira viração depois; denso nevoeiro… quatro dias! sudário de brumas que envolve o barco, elimina o céu. Vão acabar assim, amortalhados na bruma. Um ramo, apenas, sobre as águas, um ramo cor da esperança. Salvos! Adivinha-se o continente salvador através da névoa e o panorama verde das florestas.
AMARELO, DESESPERO
Ouro e sol; ouro, o desespero da cobiça, sol, o desespero da contemplação: a cor dos ideais perdidos.
Sobre o leito, o cheiro mau das chagas era como uma antecipação da morte. Descamava-se a pele em crostas ásperas sobre o grude do pus. Ela morria, alcançada pelo sorteio inexorável da Peste. À porta, o anjo negro da maldição; longe, a espavorida caridade.
Ali, na parede, havia flores adornando um retrato de moço. Simples lembrança da Páscoa, flores da aleluia, colhidas numa escapada de amantes. Amor não faz quaresma… Cobertas de ouro as árvores… Ela também triunfante: ouro sobre o esplendor adorado do sexo… Agora fitava as flores secas. Junto dela, o filho, pequeno animal sem vontade, sem vida, que lhe chegava aos lábios um copo d’água.
Sobrara-lhe um filho nos desperdícios do passado, para vigiar-lhe a agonia. Ninguém mais, ninguém mais, nem Deus com ela: apenas as flores do desespero e aquele copo d’água de vez em quando, que ela sorvia como uma medicina amarga de lágrimas…
AZUL, CIÚME
Céu e oceano, a soledade sem fim. O ciúme é isolamento, queixa sem ecos do coração solitário.
Ao despertar, estava só na triste câmara. Enferma e abandonada! Calcadas aos pés as juras de ontem, como destroços de um ídolo quebrado. Fronteira ao leito, a janela parecia alargar-se mais e mais para mostrar o firmamento. Sob o reflexo azul sonhara Rosita o abandono, eles felizes numa concha de safira, levados à flor do grande lago, docemente, cantando, docemente, se a barcarola os levasse. Morreu, fechando na pálpebra a estampa diurna daquele azul fundo, deserto.
ROXO, TRISTEZA
Tinta tomada à palheta do ocaso e às flores da morte.
Alegre, ela. Muita luz no espaço; bailava no ar o cântico sereno da manhã; na relva os arbustos orvalhados tinham um pequenino sol em cada folha. Somente as violetas sofriam, pungidas pelo dia.
Outra manhã, tudo mudado. Na atmosfera, um torpor gélido e sombrio. Os extremos da paisagem gastam-se na cerração como as orlas de uma pintura velha: nem sol nem pássaros na relva.
Agora, órfã.
As violetas revivem, as melancólicas, desabrochando em suspiros, sob as lágrimas da chuva.
VERMELHO, GUERRA
Sangue, cólera, vingança, os hinos marciais, golpes, o incêndio, vermelho o manto dos tiranos e Marte, o astro dos combates.
Da casinha à beira-mar, olhos em febre, a velha mãe arguia a distância. Lá, mergulhara o vapor que lhe roubava o filho para a guerra. A tarde passa e a noite; a velha, imóvel, marmorizada na dor, como uma escultura do Stabat Mater. E vem a aurora, uma aurora brutal de chama e sangue. A mãe do soldado caiu como morta.
Ouvira, das bandas da aurora, um grito de morte e a voz perdida do agonizante era a voz do filho.
BRANCO, PAZ
Arminho imaculado e virginais capelas, o sagrado leito das mães, o rosto calmo dos mortos, os tranquilos fantasmas.
“Terminada a luta, minha boa Irene. Torno a ver-te enfim e aos queridinhos. Ver-me-ás também. Como se fica velho neste ambiente de pólvora queimada! “
Dizia assim a carta, datada do acampamento. Irene ergueu os olhos para a tarde, os olhos rasos de pranto. Expirava o crepúsculo na ditosa agonia dos patriarcas, lenta e mansa; errava no ocidente a neblina lúcida da última hora, saudade apenas no dia extinto. A estrela plácida das tardes parecia olhar a terra; em frente alava-se a lua e o luar noctâmbulo ia, pelos caminhos, semeando a difusão suavíssima da paz.
Irene abandonou-se ao êxtase contemplativo, gozando o crepúsculo, como se lhe invadisse o sentimento a letargia edênica do anoitecer.
NEGRO, MORTE
O contraste da luz é a noite negra.
Sente-se na epiderme a carícia do calafrio; envolve-nos um clima glacial; estranha brisa penetra-nos, feita de agulhas de gelo. Em vão flameja o sol a pino. Sente-se dentro na altura a noite negra, invernosa, polar; sofre-se o contato da Sombra. Tudo trevas, sinistramente trevas. O dia, resplandecente na alvura dos edifícios, produz o efeito da prata nos catafalcos. Vemos as flores, o prado. Monstros! Reclamam a carne do pé que os pisa; o verme sôfrego espreita-nos através da terra… Rir?! Mas o riso tem a cruel vantagem de acentuar, sob a pele, a caveira…
Há destas escuras noites no espírito.
ROSA, AMOR
O sorrir das virgens, e o adorável pudor, e a primeira luz da manhã.
Esta criança pensativa. Acompanha com a vista o revoar dos pombos; escuta o misterioso segredo dos casais pousados. Vive-lhe ainda no semblante a candura da infância e nos formosos cabelos o cálido aroma do berço. Súbito, duas pombas partem. Vão. Longe, são como pontos brancos no azul; o bater das asas imita cintilações: vão, espaço a fora, estrelas enamoradas.
A cismadora criança experimenta a vertigem do azul e a alma escapa, sedenta de amplidão, e voa ao encalço das estrelas.
Há noites de pavor nas almas, há belos dias igualmente e gratas expansões matinais, auroras de rosa como em Homero.
Há também nas almas o incolor diáfano do vidro.
Dinheiro, amor, honraria, sucesso, nada me falta. O programa das ambições tracei, realizei. Tive a meu serviço a inteligência estudiosa do Ocidente e a sensualidade amestrada do Levante. Tive por mim as mulheres como deusas e os homens como cães. Nada me falta e disto padeço. Todos dizem: aspiração! e eu não aspiro. Todos sentem a música do universo e a harmonia colorida dos aspectos. Para mim só, vítima da saciedade! tudo é vazio, escancarado, nulo como um bocejo.
E os dias passam, que vou contando lento, lento torturado pela implacável cor de vidro que me persegue.
Há, enfim, a coloração indistinta dos sentimentos, nas almas deformadas.
Veio de longe, muito longe, mísero! Teve outrora um céu, uma pátria, muitas afeições, a cabana da aldeia. Agora só tem o ódio. O ódio mora-lhe no peito, como um tigre na furna. Tiraram-lhe a pátria, a companheira, votaram-lhe à morte os filhos, as filhas à torpeza; deram-lhe em compensação… Mostrava a face preta, o sangue a correr. Quem são os teus algozes?
— Os homens brancos.
Ela odeia os homens brancos; odeia a torre aguda, ao longe, como um punhal voltado contra os céus: odeia o trem medonho de fogo e ferro, que muge e passa, troando, escândalo do ermo.
(Canções sem metro, 1900)
3. Amar – As estações do amor
Outro destaque da poética de Raul Pompeia é o conjunto de textos intitulado Amar. Enquanto Vibrações lida com cores, Amar tem como fio condutor as estações do ano para expressar as fases do sentimento amoroso. São quatro poemas em prosa, cada um nomeado como uma estação – Primavera, Verão, Outono e Inverno – criando uma espécie de ciclo do amor ao longo do tempo.
Nesses textos, Pompeia associa as mudanças da natureza às transformações do coração. Podemos imaginar que a Primavera traga a esperança e o florescer de um amor; o Verão represente a paixão ardente; o Outono, a melancolia das perdas; e o Inverno, a solidão ou a saudade – embora o autor faça isso de forma sutil, sem recorrer a clichês.
Publicados originalmente em jornais e depois integrados a Canções sem metro, Amar impressiona pelo lirismo contido nas descrições de cenários e sentimentos, mostrando a capacidade de Pompeia em mesclar paisagem e estado de espírito.
Pequeno trecho
Primavera:
“A primavera é a infância do amor. Tudo nela é promessa e esperança. Os corações se abrem como as flores ao primeiro calor.”
Verão:
“O verão é a plenitude do sentimento. O sol ardente aquece as paixões, e os dias longos são testemunhas de encontros e juras eternas.”
Outono:
“No outono, o amor amadurece e começa a declinar. As folhas caem como as ilusões perdidas, e o vento leva consigo os suspiros de saudade.”
Inverno:
“O inverno é o silêncio do coração. As lembranças são como brasas que ainda aquecem, mas a neve do tempo cobre os caminhos outrora trilhados a dois.”
4. O ventre – Do mundo natural ao social
Nessa sequência, Pompeia traça um panorama que vai dos elementos naturais às criações humanas. Os poemas incluem temas como “O mar”, “A floresta”, “Os animais”, “Os minerais”, passando pelos domínios da civilização em “Indústria” e “Comércio”, e culminando em imagens poderosas em “O ventre” e “A noite”.
A estrutura de O ventre sugere uma reflexão sobre a origem e o destino: do seio fértil da natureza (“o ventre” como metáfora da mãe-terra) até a escuridão misteriosa da noite. Pompeia descreve cada cenário ou conceito com minúcia poética – as forças do mar, a quietude da floresta, a labuta da indústria – sempre com um olhar ao mesmo tempo científico (herança de sua época naturalista) e profundamente lírico.
A influência de escritores como Poe e Baudelaire também transparece aqui nas passagens mais sombrias e reflexivas. O ventre impressiona pela ambição temática: são poemas que tentam abraçar toda a realidade, do mineral ao espiritual, questionando a harmonia entre o homem e o universo.
A combinação de elementos tão diversos em uma só obra mostra a originalidade de Pompeia – poucos autores de sua geração ousaram ir tão longe em experimentação. Esse ciclo poético evidencia como Raul Pompeia aliou observação do mundo e imaginação simbólica para criar literatura.
Pequeno trecho
O Mar:
“O mar, ventre primordial, guarda os segredos da criação. Suas ondas embalam os sonhos dos que ousam desvendá-lo.”
A Floresta:
“Na floresta, cada árvore é um pensamento da terra, cada folha, uma palavra sussurrada pelo vento ancestral.”
Os Animais:
“Os animais, irmãos de jornada, compartilham conosco o instinto e o mistério da existência.”
A Indústria:
“A indústria, fruto do engenho humano, molda o mundo à sua imagem, mas não sem deixar cicatrizes na face da natureza.”
O Ventre:
“O ventre é o centro de tudo, origem e destino. Nele se gestam as ideias, as paixões, os mundos inteiros que habitamos em pensamento.”
Mais do que um autor de um livro só
Canções sem metro inteira merece lugar entre os “maiores poemas” pela sua unidade e significado histórico. A obra foi saudada por críticos ao longo do tempo como “um dos projetos mais originais e fecundos da poética brasileira de seu tempo”.
Em pleno final do século 19 – era dominada por romances realistas e versos parnasianos – Pompeia inovou ao trazer o poema em prosa para o centro da cena literária brasileira. Seus textos poéticos anteciparam características que só ganhariam força no Simbolismo (a partir de 1893) e mesmo no Modernismo anos depois, como a liberdade formal e a fusão entre prosa e poesia.
Canções sem metro permaneceu relativamente obscura até ser redescoberta e reeditada por pesquisadores contemporâneos, como Gilberto Araújo, que em 2013 organizou uma edição comentada.
Fica o convite: leia os poemas de Raul Pompeia. Você vai se surpreender com a atualidade e a força dessas obras. Mais de 130 anos depois, os poemas em prosa de Raul Pompeia continuam vivos e relevantes, prontos para encantar uma nova geração de leitores. Boa leitura!



