Embora frequentemente associada à dor da ausência, a saudade pode representar um valioso recurso terapêutico na reconstrução do bem-estar emocional. É o que mostra a psicóloga clínica e doutora em psicologia Dorli Kamkhagi, colaboradora do Instituto de Psiquiatria da FMUSP. Segundo ela, memórias afetivas — especialmente aquelas ligadas à infância, ao cuidado e às experiências positivas — ajudam a construir a base emocional que sustenta a saúde mental ao longo da vida.
A formação emocional começa no colo
Logo após o nascimento, o bebê depende totalmente do outro para sobreviver. O pediatra e psicanalista Donald Winnicott chamava esse cuidado de holding — a capacidade de a mãe ou cuidador conter, acolher e dar sentido às angústias do bebê. Quando esse vínculo inicial é seguro, cria-se uma matriz de afeto e proteção emocional que servirá como referência nas futuras relações.
A saudade, nesse contexto, é mais do que uma lembrança nostálgica: é uma evocação do ambiente emocional que nos nutriu. Reviver essas memórias, especialmente em momentos de sofrimento psíquico, pode ser uma forma de reconstituir o “colo” emocional e restaurar a sensação de pertencimento.
Luto, melancolia e o papel da saudade
Sigmund Freud diferenciava o luto saudável da melancolia. No primeiro, a perda é dolorosa, mas possível de ser elaborada com o tempo e com o apoio das boas lembranças. Já na melancolia, o enlutado se funde tanto com a figura perdida que passa a sentir como se parte de si também tivesse desaparecido.
Nesse processo, a saudade pode ser uma ponte — um meio de reorganizar o afeto, revisitar o passado com ternura e encontrar novos significados. O reencontro com memórias calorosas, como um cheiro de infância ou uma música marcante, pode ser terapêutico e trazer alívio ao sofrimento emocional.

Resgatar histórias, afetos e raízes
As lembranças de amigos distantes, lugares especiais, festas antigas e tradições familiares têm um efeito organizador na psique. Elas ajudam a estruturar a identidade e a promover o equilíbrio emocional. No consultório, é comum que memórias aparentemente simples — como o sabor de um doce feito pela avó — desencadeiem processos profundos de cura e reconhecimento interior.
“Talvez seja preciso reaprender a sentir saudades”, sugere Dorli Kamkhagi. “Tratar a saudade como uma força de reconexão, e não apenas como dor.” Nesse resgate simbólico, pode estar a chave para aliviar sintomas depressivos e promover uma reconexão com a própria história.
Longe de ser apenas ausência, a saudade pode ser presença — e, com ela, o começo de um reencontro consigo mesmo.



