RÁDIO AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO Ícone TV
RÁDIO AO VIVO Ícone Rádio

Sextou: a maior aula do Brasil passa pela Avenida

Se a gente prestar atenção, aprende muito mais história do Brasil ouvindo samba-enredo do que decorando datas durante as aulas na escola. Porque o samba não ensina pelo medo da prova — ele ensina pelo corpo, pela emoção, pela repetição coletiva. O samba-enredo entra no ouvido, desce pro coração e fica. E quando fica, vira conhecimento.

O historiador Luiz Antônio Simas diz que o samba-enredo é um gênero completamente inusitado na história da música popular brasileira, porque primeiro ele é um gênero feito sob encomenda. Pensa bem: Os compositores elaboram um samba vinculado a um enredo pensando por um Carnavalesco.

As escolas de samba sempre foram professoras populares da nossa história, principalmente daquelas histórias que os livros oficiais insistiram em esconder. Na Avenida, quem não teve voz ganha microfone. Quem foi apagado vira protagonista. E o Brasil aprende cantando.

Um dos exemplos mais marcantes dos últimos tempos é o da Estação Primeira de Mangueira, em 2019, com o histórico samba enredo “Histórias Para Ninar Gente Grande” que você ouve no fundo da minha fala.

A Mangueira fez o país inteiro rever a própria memória, questionando heróis oficiais e trazendo para o centro da narrativa personagens como indígenas, negros, mulheres e líderes populares. Foi uma verdadeira aula de revisão histórica. O samba virou debate nacional, entrou em sala de aula, virou pauta política.

Poucos anos depois, a Portela fez algo igualmente potente ao levar para a Sapucaí o universo do livro Um Defeito de Cor, da agora imortal Ana Maria Gonçalves. O enredo transformou literatura, memória e ancestralidade em imagem, canto e movimento. Aqui, a Portela mostrou que o samba-enredo também forma leitores, desperta curiosidade e amplia repertório histórico. Muita gente foi procurar o livro depois de ouvir o samba. Olha o alcance disso!!!

Para não dizerem que sou bairrista, trago dois outros exemplos recentes de samba enredos feitos por escolas de samba de São Paulo.

Em 2022, a Escola de Samba Rosa de Ouro trouxe pra Avenida o tema “Kindala! Que o amanhã não seja só um ontem com um novo nome”. O samba se utilizou de outro gênero musical, o hip hop, para denunciar o racismo e abordar a resistência negra.

Em 2024, a Vai-Vai também apresentou um enredo de forte denúncia social intitulado “Capítulo 4, Versículo 3 – Da Rua e do Povo: O Hip Hop – A Voz da Periferia”, que abordou a violência policial contra a população negra e a vida nas periferias, gerando debates. O desfile foi uma crítica social à marginalização e ao racismo estrutural. Mano Brown e seus companheiros d’Os Racionais desfilaram na Avenida já que este enredo se relacionou intrinsecamente com a obra da banda.

No fim das contas, o samba-enredo faz aquilo que a educação deveria fazer sempre: criar identificação, provocar reflexão e despertar curiosidade. Ele ensina história com emoção, com ritmo e com verdade. E talvez por isso funcione tão bem.

Porque no Brasil, aprender cantando nunca foi menos sério. Foi — e segue sendo — revolucionário.

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS