Fevereiro chega e parece que o corpo entende antes da cabeça. A temperatura sobe, o calendário avisa que o Carnaval está logo ali e, de repente, a gente lembra que alegria, no Brasil, nunca foi só distração. Alegria é linguagem, é estratégia de sobrevivência, é decisão cotidiana. Em muitos momentos da nossa história, estar alegre foi um ato de coragem.
O historiador carioca Luiz Antônio Simas, parceiro de Marcelo D2, Moacyr Luz e outros músicos, sempre diz que “a gente faz festa não porque a vida é fácil, mas justamente porque a vida é dura”. E o Carnaval é, talvez, o maior exemplo disso. Porque não é só festa. É ocupação da rua, é encontro de corpos, é suspensão — ainda que temporária — das hierarquias.
E não por acaso, o corpo negro sempre esteve no centro dessa festa. Quando o samba-reggae explode, quando o trio elétrico passa, quando o bloco se forma, o que está em jogo é muito mais do que entretenimento.
Pensa na nossa Ministra da Cultura, a cantora Margareth Menezes cantando Faraó. Aquilo não é só um hit de Carnaval. É um grito de afirmação, é a negritude ocupando o som, o espaço e o imaginário. Faraó muda o eixo da festa: o centro deixa de ser europeu e passa a ser africano, ancestral, diaspórico. Dançar ali também é aprender história com o corpo.
Quando Caetano Veloso canta Atrás do Trio Elétrico, ele está documentando uma revolução. O trio não é só um caminhão com caixas de som. É tecnologia popular, é democratização do espetáculo, é o povo andando atrás da própria alegria. O verso é simples, mas a ideia é poderosa: ninguém precisa de camarote para participar da festa.
O axé nasce exatamente dessa lógica. E não axé só como gênero musical, mas axé como energia, como força vital.
E aí entra Martinho da Vila com um do samba enredo importantíssimo que deu a Escola de Samba carioca Unidos da Tijuca em 1988 o título de campeã: “Kizomba, Festa da Raça”. Essa música lembra que a alegria também é ancestral e fraterna. Quando Martinho canta, ele transforma o Carnaval em gesto diplomático, em abraço atlântico, em samba que diz: ninguém solta a mão de ninguém.
Essa ideia não é nova. Os Novos Baianos já mostravam isso lá atrás, em Brasil Pandeiro: alegria como projeto cultural, mistura como potência, invenção como identidade. Um Brasil possível sendo ensaiado em ritmo de festa.
No fundo, o Carnaval brasileiro sempre soube: alegria organiza, alegria cria laço, alegria protege. Não é alienação — é política popular em estado puro. Quando a gente canta junto, dança junto e ocupa a rua junto, a gente ensaia um país possível. Nem que seja por alguns dias.
Por isso, em fevereiro, quando alguém diz que “é só festa”, vale responder com música. Porque aqui, a festa é discurso.
O axé é revolução sonora.
O corpo negro é centro, não margem.
E escolher alegria, no Brasil, segue sendo um ato profundamente revolucionário.



