Sextou: aqui, a festa é coisa séria

Novabrasil
Novabrasil
Somos uma emissora que privilegia a MPB como alicerce de nossa programação, creditando ao estilo musical sua devida importância como um dos maiores patrimônios brasileiros. Nos colocamos como uma solução multiplataforma que foca em conteúdo para engajar a audiência e aproximá-las de maneira relevante e pertinente das marcas. A Novabrasil faz parte do Grupo Thathi, conglomerado de comunicação que conta com o Portal TH+, além de emissoras de rádio e televisão em mais de 400 cidades de várias regiões do país.

Fevereiro chega e parece que o corpo entende antes da cabeça. A temperatura sobe, o calendário avisa que o Carnaval está logo ali e, de repente, a gente lembra que alegria, no Brasil, nunca foi só distração. Alegria é linguagem, é estratégia de sobrevivência, é decisão cotidiana. Em muitos momentos da nossa história, estar alegre foi um ato de coragem.

O historiador carioca Luiz Antônio Simas, parceiro de Marcelo D2, Moacyr Luz e outros músicos, sempre diz que “a gente faz festa não porque a vida é fácil, mas justamente porque a vida é dura”. E o Carnaval é, talvez, o maior exemplo disso. Porque não é só festa. É ocupação da rua, é encontro de corpos, é suspensão — ainda que temporária — das hierarquias.

E não por acaso, o corpo negro sempre esteve no centro dessa festa. Quando o samba-reggae explode, quando o trio elétrico passa, quando o bloco se forma, o que está em jogo é muito mais do que entretenimento.

Pensa na nossa Ministra da Cultura, a cantora Margareth Menezes cantando Faraó. Aquilo não é só um hit de Carnaval. É um grito de afirmação, é a negritude ocupando o som, o espaço e o imaginário. Faraó muda o eixo da festa: o centro deixa de ser europeu e passa a ser africano, ancestral, diaspórico. Dançar ali também é aprender história com o corpo.

Quando Caetano Veloso canta Atrás do Trio Elétrico, ele está documentando uma revolução. O trio não é só um caminhão com caixas de som. É tecnologia popular, é democratização do espetáculo, é o povo andando atrás da própria alegria. O verso é simples, mas a ideia é poderosa: ninguém precisa de camarote para participar da festa.

O axé nasce exatamente dessa lógica. E não axé só como gênero musical, mas axé como energia, como força vital.

E aí entra Martinho da Vila com um do samba enredo importantíssimo que deu a Escola de Samba carioca Unidos da Tijuca em 1988 o título de campeã: “Kizomba, Festa da Raça”. Essa música lembra que a alegria também é ancestral e fraterna. Quando Martinho canta, ele transforma o Carnaval em gesto diplomático, em abraço atlântico, em samba que diz: ninguém solta a mão de ninguém.

Essa ideia não é nova. Os Novos Baianos já mostravam isso lá atrás, em Brasil Pandeiro: alegria como projeto cultural, mistura como potência, invenção como identidade. Um Brasil possível sendo ensaiado em ritmo de festa.

No fundo, o Carnaval brasileiro sempre soube: alegria organiza, alegria cria laço, alegria protege. Não é alienação — é política popular em estado puro. Quando a gente canta junto, dança junto e ocupa a rua junto, a gente ensaia um país possível. Nem que seja por alguns dias.

Por isso, em fevereiro, quando alguém diz que “é só festa”, vale responder com música. Porque aqui, a festa é discurso.
O axé é revolução sonora.
O corpo negro é centro, não margem.
E escolher alegria, no Brasil, segue sendo um ato profundamente revolucionário.

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS