Atletas que treinam todos os dias, exibem baixo percentual de gordura e acumulam bons resultados nem sempre estão, de fato, no auge da saúde. Por trás da aparência de preparo físico, pode existir um desequilíbrio que passa despercebido e aumenta o risco de lesões: o RED-S, sigla em inglês para Deficiência Energética Relativa no Esporte.
A ortopedista Camila Cohen explica que o quadro surge quando o corpo gasta mais energia do que recebe pela alimentação, seja por restrição de comida para perder peso, busca por um corpo mais magro ou aumento importante do volume de treinos sem ajuste na ingestão calórica. “É como ficar no vermelho por tempo demais: o organismo começa a economizar onde consegue, e isso cobra um preço”, afirma.
Na prática, essa “economia” pode afetar vários sistemas do corpo. Mesmo quando o atleta mantém desempenho aparente e segue com um físico considerado ideal, o organismo pode já estar operando em desequilíbrio.
Quando o corpo poupa energia, os ossos entram na conta
Quando percebe que a energia disponível não é suficiente, o corpo prioriza funções essenciais, como manter coração e cérebro funcionando, e reduz o investimento em outras áreas. Segundo a especialista, uma das primeiras consequências envolve os hormônios e a saúde óssea.
Com menos energia, pode haver queda na produção de hormônios sexuais, alterações no metabolismo ósseo e prejuízo na capacidade de formar e reparar tecido ósseo. O resultado é um enfraquecimento gradual dos ossos, mesmo com a rotina de treinos mantida.
O alerta, muitas vezes, aparece em forma de dor e lesão. Cohen destaca que uma consequência frequente do RED-S são as fraturas por estresse: pequenas fissuras causadas pela repetição de impactos do treinamento, sem que tenha ocorrido uma queda ou outro trauma significativo.
Dores persistentes nas pernas, pés, pelve ou região lombar, recuperação lenta entre treinos e queda inesperada de desempenho são sinais que merecem atenção. Nas mulheres, alterações menstruais ou interrupção da menstruação podem ser pistas importantes. Já nos homens, o reconhecimento tende a demorar mais, porque as alterações hormonais costumam ser menos evidentes.
Além do impacto nos ossos, o RED-S pode afetar a imunidade, elevar o risco de lesões musculares, prejudicar concentração e influenciar o humor, com reflexos diretos na performance esportiva.

Risco pode se estender por décadas
Outro ponto de preocupação envolve a idade em que o problema aparece. Adolescência e início da vida adulta são fases decisivas para a formação da massa óssea que servirá como “reserva” ao longo do envelhecimento.
Se o RED-S ocorre nesse período, essa construção pode ficar comprometida e não atingir o potencial máximo. Na avaliação da ortopedista, isso pode aumentar o risco de osteoporose e fraturas muitos anos depois.
Reconhecer cedo melhora as chances de recuperação
O lado positivo é que há tratamento, especialmente quando a condição é identificada precocemente. O cuidado envolve corrigir a disponibilidade de energia por meio da alimentação, ajustar a carga de treinos quando necessário e acompanhar o atleta com uma equipe multidisciplinar, incluindo médicos, nutricionistas, fisioterapeutas e preparadores físicos.
Cohen também chama atenção para uma ideia comum no esporte, mas potencialmente perigosa: associar magreza extrema a melhor rendimento. “Em muitos casos, um corpo muito definido pode estar sinalizando justamente o contrário: falta de energia para manter o organismo saudável”, alerta.
Para a especialista, dores recorrentes, fraturas por estresse e queda sem explicação no rendimento não devem ser tratadas como algo “normal do treinamento”. “Muitas vezes, é o pedido de ajuda de um organismo que já está trabalhando no limite”, afirma.
Em esportes de alto rendimento, a mensagem é direta: saúde e desempenho precisam caminhar juntos. Quando o corpo entra em “dívida energética”, os ossos costumam ser um dos primeiros a pagar a conta.


