Mesmo com a rotina atravessada por redes sociais, mensagens instantâneas e chamadas de vídeo, a solidão tem avançado e se tornado uma preocupação de saúde pública. O contraste entre hiperconexão digital e distanciamento emocional vem sendo apontado por órgãos internacionais e por especialistas como um fator que pode impactar não só a saúde mental, mas também o corpo.
A psicóloga Dorli Kamkhagi afirma que o isolamento social ganhou outra dimensão nos últimos anos, especialmente após a pandemia, quando muitas pessoas passaram a ter dificuldade de retomar atividades coletivas e vínculos presenciais. “Nunca estivemos tão conectados pelas telas e, paradoxalmente, tão afastados emocionalmente”, alerta a especialista.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já trata a solidão como uma questão de importância global. A preocupação se justifica porque o afastamento de relações afetivas, de grupos e de espaços de convivência pode agravar quadros emocionais e favorecer o adoecimento.
Embora muitas vezes seja associada a depressão, luto, aposentadoria ou perdas de papéis sociais, a solidão também aparece como um fator de risco por si só. Países da Europa e os Estados Unidos, diante do aumento do isolamento social, passaram a discutir e criar políticas públicas para enfrentar o problema.
Estudos citados nesse debate apontam que a falta de conexões sociais e afetivas pode elevar o sofrimento psíquico e contribuir para o crescimento de casos de suicídio. Um dos pesquisadores lembrados nessas análises, Murthy, destacou que cerca de um bilhão de pessoas convivem atualmente com problemas relacionados à saúde mental — o equivalente a uma em cada oito pessoas no mundo.

O impacto em idosos: invisibilidade e sensação de não pertencimento
Na prática clínica e em observações acumuladas ao longo de duas décadas no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, Dorli Kamkhagi relata que os efeitos do isolamento se mostram especialmente profundos em pessoas acima dos 60 anos. Muitos idosos, segundo ela, descrevem uma sensação de “invisibilidade social”, como se deixassem de ocupar um lugar no mundo após perdas afetivas, familiares ou mudanças importantes na rotina.
Essa vivência de exclusão, explica a psicóloga, pode enfraquecer o senso de pertencimento e favorecer pensamentos relacionados à morte. “Quando a pessoa deixa de se sentir parte de grupos, relações e espaços de convivência, o sofrimento pode se intensificar”, destaca.
Além do impacto emocional, pesquisas também associam o isolamento social a riscos físicos. Entre os principais problemas ligados à solidão estão:
- · doenças cardiovasculares;
- · hipertensão;
- · AVC;
- · declínio cognitivo;
- · aumento das chances de desenvolvimento de demências.
Os efeitos tendem a ser ainda mais intensos quando se somam perdas importantes, como o luto, o afastamento familiar e a redução de interações após a aposentadoria.
Para além do acompanhamento médico, a psicóloga defende que estratégias terapêuticas voltadas à reinserção social e ao fortalecimento de vínculos afetivos são parte central do cuidado. A ideia é reconstruir, aos poucos, a rede de apoio e o sentimento de pertencimento.
O tema também tem sido discutido em eventos sobre comportamento e inovação. Em recente debate, o psicólogo e pesquisador David Goleman, conhecido pelo conceito de inteligência emocional, chamou atenção para a diferença entre conexão tecnológica e conexão humana. “Embora a modernidade ofereça inúmeros recursos tecnológicos de conexão, nada substitui os vínculos afetivos reais”, afirmou.
Na avaliação de especialistas, o avanço da solidão em uma sociedade conectada por telas reforça a necessidade de olhar para a qualidade das relações — e não apenas para a quantidade de contatos — como um fator decisivo para a saúde.

