Campanhas de doação ajudam a reforçar os estoques, mas nem toda bolsa de sangue serve para qualquer pessoa. Em emergências e tratamentos complexos, a compatibilidade é determinante e alguns tipos sanguíneos são naturalmente difíceis de encontrar, o que coloca pacientes e hemocentros em uma corrida contra o tempo.
O hematologista e hemoterapeuta Jefferson Ruiz explica que a raridade tem relação direta com genética e com a composição da população. “Um tipo sanguíneo é considerado raro quando aparece em menos de 1 a cada 1.000 pessoas”, afirma, destacando que isso ocorre quando faltam antígenos comuns na maioria das pessoas ou quando há combinações muito específicas.
No Brasil, a distribuição é desigual: o O+ representa cerca de 38% da população, enquanto o AB- não chega a 1%, sendo o mais raro entre os oito tipos principais. Já o O-, frequentemente usado em situações críticas por ser considerado doador universal, corresponde a cerca de 7%.
Há casos ainda mais incomuns, como o Rh nulo, conhecido como “sangue dourado”, com menos de 50 registros no mundo. No país, menos de 1% dos brasileiros tem tipos considerados raros.
Raridade vai além do ABO e do fator Rh
Embora a maior parte das pessoas conheça apenas os grupos ABO e o fator Rh (positivo ou negativo), a compatibilidade pode ser muito mais complexa. O sangue humano tem mais de 360 antígenos distribuídos em 43 sistemas, segundo o conteúdo médico apresentado.
Isso significa que duas pessoas com o mesmo “tipo” (como O- ou A+) podem não ser compatíveis em situações específicas, dependendo do conjunto de antígenos. “Quando uma pessoa apresenta combinações raríssimas desses antígenos, ela passa a integrar o grupo dos doadores raros”, explica Ruiz. Em alguns casos, o especialista destaca que o doador pode ser praticamente único em um estado inteiro.

Como os bancos de sangue tentam localizar doadores raros
Quando o paciente precisa de um tipo raro, as chances de encontrar uma bolsa compatível rapidamente caem, simplesmente porque há menos doadores com aquele perfil. Se não houver unidades disponíveis em hospitais e hemocentros, pode ser necessário acionar bancos especializados ou procurar doadores em outros estados, o que consome tempo crítico.
Por isso, os serviços de hemoterapia costumam monitorar doadores raros e manter contato frequente para tentar garantir disponibilidade quando surgir uma necessidade.
Mesmo com esse acompanhamento, a busca pode levar horas preciosas. Além disso, a logística do transporte é delicada: uma bolsa rara precisa de controle rigoroso de temperatura e tempo, e muitas vezes depende de deslocamentos interestaduais.
O que acontece nas emergências
Em situações de urgência, a compatibilidade não é um detalhe: é o que permite a transfusão acontecer com segurança. O AB-, por exemplo, só pode receber sangue de doadores Rh negativos, o que restringe o número de opções e torna a reposição mais difícil.
Nessas ocorrências, hemocentros acionam bancos de dados de doadores raros e podem usar ferramentas de geolocalização para encontrar quem está mais perto. Aplicativos especializados também têm sido usados para conectar doadores a hemocentros e permitir acionamento rápido quando surge uma demanda.
Para Ruiz, a principal saída segue sendo aumentar e manter uma base ativa de doadores. “Doar sangue — especialmente se você tem tipo raro — salva vidas”, alerta.
Além de sustentar atendimentos de emergência, a falta de sangue raro pode comprometer cirurgias e tratamentos de doenças hematológicas. A doação regular amplia os estoques e também ajuda a identificar novos perfis raros, fortalecendo a rede que atende pacientes todos os dias.


