Organizar os remédios fora da embalagem original é um hábito comum, mas pode trazer prejuízos à eficácia e à segurança do tratamento. A farmacêutica e bioquímica Ana Paula Machado Klinkowström Bruzetti explica que o uso racional de medicamentos não envolve apenas tomar na dose certa: o armazenamento também faz parte do cuidado.
Segundo ela, a embalagem não é um detalhe. Ela foi criada para manter o medicamento estável e protegido de fatores que podem degradar o princípio ativo. “A embalagem de medicamentos desempenha papel fundamental na manutenção da estabilidade, protege o medicamento contra fatores que podem degradar o princípio ativo, como luz, umidade, oxigênio e variações de temperatura”, afirma.
A especialista lembra que alguns componentes podem reagir com o ar, sofrer alterações com calor e frio ou perder qualidade com a luz. “Alguns ativos em contato com o ar, variação de temperatura ou expostos à luz, podem sofrer oxidação ou reações fotoquímicas, que reduzem sua eficácia”, diz. Ela também chama atenção para a umidade: “Ou até mesmo, absorver a água do ambiente, que pode acelerar reações indesejáveis ou alterar sua forma física”.
Por isso, itens como os dessecantes (aquelas cápsulas ou sachês que ajudam a controlar a umidade dentro do frasco) não devem ser removidos. “Nos frascos/potes, vêm com dessecantes que não devem ser removidos”, reforça.
O que pode acontecer ao tirar o remédio da embalagem
Ao transferir comprimidos e cápsulas para outros recipientes, como potes, sacos plásticos ou porta-comprimidos, a farmacêutica alerta para riscos importantes, incluindo:
- · Degradação do princípio ativo, com redução da potência
- · Alteração do perfil de dissolução, especialmente em comprimidos revestidos
- · Perda da eficácia terapêutica, com possibilidade de falhas no tratamento
- · Aumento do risco de erros de medicação, devido à perda de identificação
- · Possibilidade de contaminação, especialmente em ambientes úmidos
Ela destaca que tipos de embalagem como blísteres, frascos de vidro âmbar, potes com dessecantes e embalagens aluminizadas têm função prática: “são projetados para manter o princípio ativo estável, evitando sua degradação precoce”.
Outro ponto sensível é a validade. “A data de validade impressa no rótulo só é garantida enquanto o medicamento permanece nessas condições”, alerta.

Porta-comprimidos: quando pode ajudar e quando atrapalha
O porta-comprimidos pode ser útil para quem precisa organizar horários e doses, mas não deve ser usado indiscriminadamente. “O uso de porta-comprimidos pode ser útil para organização das doses e melhora da adesão ao tratamento, desde que seja feito com critério e orientação farmacêutica”, afirma Ana Paula.
De acordo com a especialista, ele pode ser utilizado quando:
- · O medicamento é considerado estável
- · Há orientação de um farmacêutico ou profissional de saúde
- · A organização é feita apenas para curto período, preferencialmente até 24 horas
Já em outras situações, a recomendação é evitar. Ela cita como exemplos “cápsulas moles, efervescentes ou revestidas”, porque “estes formatos dependem do invólucro ou revestimento para manter propriedades específicas”. Também entram na lista os medicamentos sensíveis à umidade e à luz, quando a embalagem funciona como barreira de proteção.
Na dúvida, a orientação é simples: procurar ajuda antes de trocar o remédio de lugar. “Sempre que houver dúvida sobre a possibilidade de transferir um medicamento para outro recipiente, a orientação de um profissional farmacêutico é fundamental”, afirma. Para a farmacêutica, “pequenos cuidados no armazenamento podem fazer grande diferença nos resultados do tratamento” e ajudam a reforçar a segurança do paciente.


