Para quem convive com doença renal crônica em fase avançada, o transplante de rim se consolidou como a principal alternativa para retomar a rotina com mais autonomia. Quando os rins perdem grande parte da função, o corpo passa a ter dificuldade para eliminar toxinas e equilibrar líquidos e sais minerais, o que afeta diretamente a saúde e o bem-estar.
A diálise consegue substituir parte desse trabalho, mas, em muitos casos, o transplante é visto como o caminho mais eficaz. “A diálise é capaz de substituir parte dessas funções, mas o transplante renal é considerado a melhor alternativa de tratamento para muitos pacientes, por oferecer maior sobrevida, mais liberdade no dia a dia e melhor qualidade de vida”, afirma a nefrologista Carlucci Ventura.
No Brasil, o desafio é grande: segundo dados do Ministério da Saúde citados pela médica, mais de 160 mil pessoas fazem diálise regularmente, mas apenas 5 a 10% conseguem efetivamente realizar um transplante renal.
Quando o transplante entra em cena
O procedimento é indicado para pacientes com insuficiência renal em estágio avançado, quando a capacidade de filtração dos rins está muito reduzida. A cirurgia implanta um rim saudável, de doador vivo ou falecido, para assumir a função do órgão comprometido.
Na prática, o rim transplantado é colocado na parte inferior do abdômen e ligado aos vasos sanguíneos e à bexiga. Em geral, os rins doentes não são retirados e permanecem no corpo, mesmo sem funcionar.
Para aumentar as chances de sucesso, a compatibilidade entre doador e receptor é avaliada com exames de sangue, incluindo tipagem sanguínea e análises do sistema HLA, que ajudam a reduzir o risco de rejeição. Depois da cirurgia, o paciente precisa usar imunossupressores de forma contínua. A médica ressalta que, embora esses medicamentos elevem a vulnerabilidade a infecções, “eles são indispensáveis para garantir a sobrevida do transplante”.

Mais segurança, melhores resultados e um gargalo persistente
Nas últimas décadas, o transplante renal evoluiu com técnicas cirúrgicas mais seguras, imunossupressores mais eficientes e protocolos de acompanhamento mais consolidados. “Hoje contamos com cirurgias mais seguras, imunossupressores mais eficazes contra a rejeição e protocolos de acompanhamento bem estabelecidos”, diz Ventura.
Os resultados também são considerados animadores. A médica cita registros internacionais segundo os quais mais de 80% dos pacientes seguem com o rim funcionando cinco anos após o transplante, com desempenho ainda melhor quando o órgão vem de doador vivo e quando o procedimento é feito em centros experientes.
Além do impacto individual, há reflexo no custo do tratamento: o transplante pode representar economia para o sistema de saúde, já que a diálise tende a ser mais cara do que o acompanhamento do paciente transplantado.
No cenário brasileiro, o país tem um dos maiores programas públicos de transplante do mundo e ocupa o segundo lugar em número de cirurgias, atrás apenas dos Estados Unidos. Mesmo assim, a fila de espera segue extensa: mais de 30 mil pessoas aguardam por um rim.
Segundo Ventura, a maior parte dos transplantes é feita com órgãos de doadores falecidos, mas os de doadores vivos, geralmente familiares compatíveis, costumam oferecer melhores resultados por reduzir o tempo de espera e aumentar a vida útil do órgão. Por isso, ela destaca que campanhas de conscientização sobre doação continuam fundamentais para ampliar o acesso.
O que pode mudar nos próximos anos
O futuro aponta para alternativas ainda em desenvolvimento. A médica afirma que pesquisas com xenotransplante, usando rins de animais geneticamente modificados, avançam “de forma cautelosa, mas consistente”. Ao mesmo tempo, estudos em bioengenharia de tecidos e impressão 3D buscam criar órgãos a partir de estruturas artificiais ou células do próprio paciente.
Apesar de ainda não estarem disponíveis na prática clínica, essas frentes sinalizam um horizonte em que a falta de órgãos deixe de ser o principal limite do transplante renal. Até lá, a orientação é reforçar as medidas com impacto mais imediato: diagnóstico precoce das doenças renais, ampliação do acesso ao tratamento e fortalecimento das políticas de doação.


