Você conhece Walter Franco?
O cantor e compositor paulistano que completaria 81 anos hoje foi um dos músicos mais influentes no cenário underground brasileiro e um dos mais revolucionários da história da música popular brasileira, sendo precursor de compositores como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Arnaldo Antunes.
Vanguardista e super experimentalista, Walter não chegou a participar de nenhum movimento cultural musical, como a Bossa Novaou a Tropicália, mas seu nome sempre se fez presente na chamada vanguarda.
Quem foi Walter Franco

Nascido em São Paulo, no ano de 1945, em uma família que valorizava bastante a arte, Walter Franco desde pequeno já apresentava muito interesse pelo universo artístico, envolvendo-se com música e poesia. Seu pai, Cid Franco, era poeta e se correspondia com nomes de destaque da literatura brasileira como Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.
Walter acabou vinculando-se ao teatro antes da música e cursou a Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo. De lá teve inspirações musicais bastante conectadas à voz como instrumento. Compôs trilhas sonoras para peças e este período influenciou grande parte de seu trabalho a partir daí.
Na música, começou participando de festivais de MPB em 1968, quando inscreveu a canção “Não se Queima um Sonho” no 1° Festival Universitário da TV Tupi, defendida por Geraldo Vandré.
Na segunda edição do festival, Walter Franco conquistou o terceiro lugar com sua canção “Sol de Vidro”. Em 1972, no 7° Festival Internacional da Canção, organizado pela TV Globo, conquistou também o prêmio especial com a composição “Cabeça”, uma de suas músicas mais famosas e que, depois, foi traduzida para o inglês por Augusto de Campos.
A canção – que no festival levou uma das mais estrondosas vaias do público, mas que conquistou o júri por ser uma música à frente de seu tempo – é totalmente fora dos padrões da época, baseada em vozes superpostas e repetições de fragmentos da letra, quase incompreensíveis.
O júri do festival – composto por Nara Leão, Décio Pignatari, Júlio Medaglia, Roberto Freire e Rogério Duprat – escolheu “Cabeça” como vencedora. Mas, com as vaias e a presença de censores e militares nos bastidores do evento, o júri foi simplesmente desfeito e o prêmio foi para a alegre “Fio Maravilha”, de Jorge Ben Jor, defendida por Maria Alcina.
O mais maldito dos malditos da MPB
Em 1973, Walter Franco lançou seu primeiro disco – “Ou Não” – que conta com a participação do maestro Rogério Duprat, grande nome do tropicalismo, e com uma linguagem musical fortemente influenciada pela poesia concreta.
As músicas do álbum – de capa branca, apenas uma mosca no centro – contavam com algo de psicodelia, e ao mesmo tempo com grande complexidade sonora e simplicidade instrumental.
No ano seguinte, Franco apresentou o show “A Sagrada Desordem dos Espíritos”, no Teatro de Arena, em que cantava e tocava violão em posição da flor de lótus.
Em 1975 – com sua canção “Muito Tudo” – conquistou a terceira posição no Festival Abertura, também da Rede Globo, com os arranjos do maestro Júlio Medaglia.
No mesmo ano de 1975, Walter Franco também lançou o seu mais aclamado álbum, “Revolver”, considerado uma obra prima, em que equilibrava suas ideias mais arrojadas e uma sonoridade pop e rock, bastante influenciada pela banda inglesa The Beatles.
Na canção “Eternamente”, a letra ganha diferentes significados, apenas com o desdobramento de uma única palavra:
“Eternamente
É ter na mente
Éter na mente
Eterna mente”
Em 1979, a sua canção hit “Canalha”, ficou em segundo lugar no Festival 79 de Música Popular, realizado pela Rede Tupi. Cantada com a voz dilacerada, quase um grito primal, provocava uma catarse coletiva. “Canalha” foi posteriormente interpretada por outros nomes importantes da música brasileira como Oswaldo Montenegro, Titãs, Camisa de Vênus, Jards Macalé e Lobão.
Outras canções de destaque de Walter Franco são: sua canção mais famosa, “Coração Tranquilo” (1978);além de “Respire Fundo” (1978); “Vela Aberta” (1980)e “Serra do Luar” (1981).
“Tudo é uma questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranquilo”
“Viver é afinar o instrumento
De dentro pra fora
De fora pra dentro”
Considerado “o mais maldito dos malditos da MPB” – rótulo dado a músicos admirados pela crítica e incompreendidos pelo público – Walter Franco lançou, em 2001, o álbum “Tutano”, no qual apresenta um repertório inédito depois de quase 20 anos e conta com a participação de Arnaldo Antunes.
Em 2015, comemorou 70 anos de vida e sua volta aos palcos e relançando o álbum “Revolver”, após 40 anos.
Infelizmente, o mercado fonográfico não conseguia encaixar Walter Franco. O artista passou por períodos de ostracismo, assim como outros gênios da nossa música brasileira, como Jards MacaléeJorge Mautner.
Walter Franco, ainda assim, foi também regravado e reverenciado por nomes como Leila Pinheiro, Chico Buarque,WanderléaePato Fu.
Walter Franco nos deixou em 2019 – aos 74 anos – por conta de um acidente vascular cerebral, deixando um legado imenso para a música popular brasileira.



