A popularização das canetas injetáveis para tratar a obesidade avança no Brasil e reacende discussões sobre segurança. Com um em cada três brasileiros vivendo com a doença, segundo a Federação Mundial da Obesidade, a procura por terapias eficazes cresce e o mercado já movimenta bilhões de reais no varejo. Nesse cenário, a endocrinologista Mayra Macena, membro da Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo (ABRASSO), explica o que a ciência sabe sobre o impacto desses remédios nos ossos.
Ao lembrar a longa busca por alternativas contra a obesidade — que já incluiu, no passado, até a “amarração da mandíbula” para limitar a abertura bucal —, a especialista reforça que o foco precisa estar no cuidado contínuo, com mudanças de estilo de vida e, quando indicado, uso responsável de medicamentos.
“Essas medicações se destinam ao tratamento de uma doença crônica: a obesidade. Portanto, não devem ser chamadas de ‘medicações para emagrecer’ ou ‘canetas emagrecedoras’.”
“Utilizar essas expressões passa a ideia equivocada de que tais remédios são indicados apenas para quem deseja emagrecer. Isso distorce a finalidade do tratamento, reforça estigmas e contribui para a disseminação de desinformação”, afirma Macena.
O que dizem os estudos sobre os ossos
Com a chegada de uma nova geração de remédios injetáveis voltados ao tratamento da obesidade, cresce também a preocupação sobre possíveis efeitos ósseos. A médica destaca que as pesquisas disponíveis não apontam dano direto dos fármacos ao tecido ósseo.
“Até o momento, as evidências mostram que o efeito dessas moléculas nas células ósseas é de aumento da formação óssea e redução da reabsorção. Ou seja, os estudos não demonstram um efeito direto prejudicial dessas medicações sobre a saúde dos ossos.”
Segundo a endocrinologista, a atenção precisa se voltar ao que acontece durante o emagrecimento. “Essa nova geração de medicações promove redução do apetite e perda de peso mais rápido. Além disso, muitos pacientes acabam restringindo o consumo de leite e derivados, o que diminui a ingestão de cálcio.”
“A combinação desses fatores, como perda de peso acentuada e restrição alimentar, incluindo menor consumo de cálcio e outros micronutrientes, pode contribuir para a redução da densidade mineral óssea.”

Acompanhamento e exercícios protegem a estrutura óssea
Para reduzir riscos, a orientação é integrar tratamento médico, alimentação adequada e atividade física. “É essencial que pacientes em tratamento da obesidade sejam acompanhados por uma equipe multidisciplinar, formada por médico, nutricionista e educador físico.”
“Estudos mostram que a prática de exercícios durante o tratamento ajuda a reduzir tanto a perda óssea quanto a perda de massa muscular associadas ao emagrecimento.”
No Brasil, porém, cerca de 40% a 50% dos adultos não praticam atividade física na frequência e intensidade recomendadas, o que reforça a importância do suporte profissional e de metas realistas para manter a saúde durante o processo de perda de peso.
“Com acompanhamento adequado, o paciente consegue aproveitar plenamente os benefícios da perda de peso, reduzindo o risco de perda de densidade mineral óssea”, conclui a endocrinologista.



