Tomar vários medicamentos ao mesmo tempo ou recorrer a remédios por conta própria é um hábito comum, mas que pode trazer consequências sérias. O uso simultâneo de diferentes fármacos aumenta o risco de efeitos colaterais, interações e até falhas no tratamento de doenças que exigem controle contínuo.
O médico Alfredo Salim Helito explica que é frequente ver pacientes chegarem à consulta com uma lista extensa, formada por prescrições de diferentes especialistas e por itens iniciados sem orientação. “Muitas vezes, ninguém parou para revisar o conjunto”, alerta o especialista, ao mencionar a combinação de analgésicos, anti-inflamatórios, remédios para dormir, suplementos e até produtos naturais.
Na prática clínica, esse quadro costuma ser chamado de polifarmácia, termo usado para descrever, em geral, o uso de cinco ou mais medicamentos ao mesmo tempo. Embora possa ser necessário em algumas situações — especialmente em pessoas com múltiplas doenças crônicas —, o excesso pode virar um fator de risco silencioso.
Interações entre remédios: quando a combinação vira perigo
Cada medicamento atua de um jeito no organismo. Quando diferentes substâncias são usadas juntas, os efeitos podem se somar, se anular ou provocar reações inesperadas. Entre os problemas associados a interações medicamentosas estão aumento do risco de sangramentos, quedas de pressão, alterações nos rins, sobrecarga no fígado e distúrbios cardíacos.
Em idosos, a atenção precisa ser redobrada. Com o envelhecimento, o corpo muda a forma de metabolizar e eliminar substâncias, o que pode tornar os efeitos colaterais mais intensos e duradouros. Helito destaca que mesmo medicamentos considerados comuns podem desestabilizar quadros já controlados: “Um simples anti-inflamatório pode descompensar a pressão arterial, agravar insuficiência renal ou interferir na ação de anticoagulantes”, afirma.
Outro efeito menos percebido é a redução da eficácia de tratamentos essenciais. O uso simultâneo de muitos remédios pode atrapalhar o controle de doenças como diabetes, hipertensão e insuficiência cardíaca, criando um ciclo de ajustes e novas prescrições sem que a causa principal — a combinação inadequada — seja identificada.

Automedicação: sensação de segurança que pode custar caro
A automedicação também pesa nesse cenário. A facilidade de acesso a analgésicos e anti-inflamatórios alimenta a ideia de que eles são sempre seguros, quando, na prática, nenhum medicamento é isento de risco.
Usar remédios por conta própria pode mascarar sintomas, atrasar diagnósticos e provocar efeitos cumulativos. Anti-inflamatórios consumidos com frequência estão associados a maior risco de sangramento gastrointestinal e complicações cardiovasculares. Já medicamentos para dormir podem levar à dependência e aumentar o risco de quedas.
Pessoas com doenças crônicas merecem cuidado extra: até um remédio “aparentemente simples” pode interferir no que já está em uso ou desequilibrar uma condição antes controlada, reforça o especialista.
Revisão periódica: menos pode ser mais
Para reduzir riscos, a recomendação é revisar periodicamente a lista completa de medicamentos, avaliando se tudo continua necessário, se as doses estão adequadas e se há espaço para simplificar o esquema. Uma estratégia cada vez mais usada é a desprescrição — retirada planejada e segura de remédios que já não trazem benefício claro —, especialmente em idosos.
Helito ressalta que a segurança começa com informação: “É fundamental levar à consulta a lista completa de tudo o que utiliza, incluindo suplementos e produtos naturais”, destaca. Isso ajuda a identificar sobreposições, interações e usos sem indicação.
Medicamentos seguem sendo ferramentas valiosas quando bem indicados, mas o uso excessivo, desorganizado ou sem orientação pode transformar tratamento em risco. Para especialistas, o caminho mais seguro envolve acompanhamento regular e revisão cuidadosa do que está sendo tomado.


