Antes de ser um título, TORÓ é um presságio: em Pernambuco, a expressão tupi-guarani versa sobre o aguaceiro que se ergue do nada, descostura o céu em poucos minutos e se retrai deixando no ar um hálito de barro molhado.
A convite do Holland Festival, Vitor Araújo concebe uma suíte de polirritmias e suspensões tímbricas que confia à força elástica da Metropole Orkest (sob regência de Jacomo Bairos) e a um pequeno núcleo de companheiros de viagem capazes de sustentar, ao mesmo tempo, a ferocidade da percussão popular e a inteligência orquestral. O piano, desta vez, não reivindica centralidade: faz-se ostinato discreto, sustentação harmônica, espaço para que os outros instrumentos respirem.
Ao seu lado pulsa um coração de couros e madeiras. Mauro Refosco, brasileiro radicado em Nova York há três décadas, traz consigo a precisão tribal que o fez parceiro de David Byrne e dos Red Hot Chili Peppers, transformando cada desenho rítmico em geografia — mapas que o sinfônico atravessa sem se enrijecer. Aduni, ogã do mais antigo terreiro nagô do Brasil, convoca os toques e as danças do Nordeste — Côco de Roda, Afoxé, Maracatu, Boi do Maranhão, — como se cada golpe de baqueta abrisse uma porta ritual. Amendoim, também criado no Morro da Conceição, em Recife, e discípulo de Naná Vasconcelos, trabalha o ar entre os tambores: não só ritmo, mas fôlego, murmúrio, o zumbido que antecede o temporal.
Quem costura e desloca continuamente a paleta é Charles Tixier (bateria, synth, MPC, amostras), produtor francês de nascimento mas formado na cena de São Paulo (Ava Rocha, Luiza Lian, Tim Bernardes): seus aportes eletrônicos não “enfeitam”, abrem clareiras. E, na trama melódica, o carioca Felipe Pacheco Ventura deixa a guitarra em equilíbrio entre o bordão e o fraseado, entre o eco das cordas e a filigrana pop: um instrumento-ponte que faz a orquestra roçar a canção sem nela entrar por completo.

A voz de Araújo — um falsete que parece vapor sobre a pele dos tambores — não busca virtuosismo: busca altura. É aí que TORÓ revela sua gramática, feita de toques e cantos como capítulos sem enredo explícito.
A genealogia brasileira (o fôlego orquestral de Villa-Lobos, a urbanidade harmônica de Jobim) encontra um presente poroso: reflexos de Sakamoto, uma melancolia “radioheadiana” que não é citação, é qualidade de luz. Numa das faixas, um rádio a pilha pontilhando o éter vira instrumento pleno e um órgão de tubos sampleado é decomposto em feixes
sonoros que Tixier monta e desmonta como vitrais cambiantes; pela orquestra circula uma série de doze gestos de cordas, grandes glissandos entregues ao tempo vivo, entre partitura e acaso. É uma música em que a chuva não apenas cai: evapora, retorna, condensa-se num coro de madeira e metal.
Tudo isso foi registrado ao vivo no Holland Festival, em 12 de junho de 2024. Vinte músicos no palco; dois dias de ensaio; o hábito da orquestra de ler à primeira vista; e a percussão pedindo um acordo fino de dinâmicas.
A gravação carrega consigo o risco e o ar do concerto, o grão do som que não teme permanecer humano. Há até um detalhe que parece uma lenda: uma infecção súbita no dedo da mão direita do artista, na véspera da apresentação.
Os médicos sugerem ao festival o cancelamento da noite de espetáculo; Araújo nega, reescreve suas próprias digitações em uma tarde e toca com nove dedos. A ferida vira gesto, como um toró que passa e, ao passar, muda a qualidade da luz.
Se a Metropole Orkest oferece a massa elástica, a memória de um ensemble capaz de atravessar décadas de jazz, cult-pop e trilhas sonoras (e colaborações em sua história que vão de Ella Fitzgerald a Brian Eno), a banda de Araújo imprime direção e atrito: Refosco como bússola percussiva, Aduni e Amendoim como raízes vivas que ligam o Recife ao presente, Tixier como oficina tímbrica, Ventura como linha de sombra melódica. O resultado não “soma” tradições: faz com que conversem até que já não sobrem bordas.
Nascido no Recife, revelação precoce (prêmio APCA de “Artista Revelação” e apontado pela revista Galileu entre “as dez mentes mais brilhantes” do Brasil ainda no início de sua carreira), Araújo atravessou palcos e linguagens: duos com Caetano Veloso, João Donato, Naná Vasconcelos; um álbum com Arnaldo Antunes, “Lágrimas no Mar”, que lhe permitiu rodar o mundo nos últimos anos, e outro, “Levaguiã Terê”, disco solo que o consagrou como autor sinfônico; o cinema internacional (‘Que Horas Ela Volta’ ou indicado ao Oscar ‘Democracia em Vertigem’ são alguns dos exemplos); e, mais recentemente, um intenso trabalho teatral na Europa (Odéon–Théâtre de l’Europe, Comédie de Genève, Avignon, Biennale di Venezia). Com TORÓ, ele condensa tudo isso num único gesto: deixa que cidade e rito, eletrônica e tradição, orquestra e pele de tambor se reflitam na mesma torrente.



