Cartunista premiado, agitador cultural, ativista político, pintor, editor, apresentador de TV e até parceiro de Carlos Drummond de Andrade e Shakira, Ziraldo construiu uma das trajetórias mais ricas e inquietas da cultura brasileira.
Nascido em Caratinga (MG), em 1932, e falecido em 2024, aos 91 anos, teve seu primeiro desenho publicado aos seis anos. Estudou Direito, mas nunca advogou. Preferiu os traços firmes e as ideias ousadas.
Militante contra a ditadura, fundou O Pasquim, foi preso três vezes por charges políticas e teve obras censuradas. Ao mesmo tempo, encantava crianças com livros sobre sacis, planetas lilases e cores tristes. Suas histórias, muitas delas premiadas internacionalmente, também foram adaptadas para cinema, TV, teatro e exposições.
15 curiosidades surpreendentes sobre Ziraldo
1. Seu nome é uma invenção dos pais
Ziraldo é uma junção de “Zizinha” e “Geraldo”, os nomes dos pais. A alternativa cogitada era “Gezi”, mas foi prontamente descartada pela mãe.
2. Começou a publicar aos 6 anos
Seu primeiro desenho saiu na Folha de Minas em 1939. Desde pequeno, já desenhava nas paredes de casa, incentivado por uma família que valorizava livros e revistas como Flash Gordon.
3. Criou a primeira HQ a cores feita por um único autor no Brasil
A Turma do Pererê, lançada em 1960, foi um marco dos quadrinhos nacionais. Com personagens do folclore, como o saci, e da fauna brasileira, a revista teve grande sucesso, mas foi encerrada com o golpe militar de 1964.
4. Foi preso três vezes durante a ditadura
Ziraldo era um dos fundadores do jornal satírico O Pasquim, que desafiava a censura com humor crítico. Em 1970, ele e quase toda a redação foram presos por dois meses. A imprensa não pôde noticiar, e o sumiço foi apelidado de “a gripe”.
5. Escapou de um atentado a bomba
Em 1970, uma célula da extrema-direita plantou 5 kg de dinamite na sede do Pasquim, no Rio. A bomba foi desativada a tempo.

6. Recebeu indenização como anistiado político
Em 2008, o Estado reconheceu a perseguição sofrida e concedeu a Ziraldo uma pensão vitalícia e cerca de R$ 1 milhão retroativos.
7. Armstrong disse que a Lua era da cor de “Flicts”
Ao visitar o Brasil, o astronauta Neil Armstrong recebeu o livro Flicts (1969), sobre uma cor rejeitada. Após ler, escreveu: “Sim, de perto, a Lua é da cor de Flicts”.
8. Desenhou os mascotes da Copa União de 1987
Flamenguista fanático, Ziraldo ilustrou os mascotes dos 16 clubes da competição e chegou a fazer cartazes para filmes nacionais nos anos 60 e 70.
9. Fundou a revista “Bundas” em plena democracia
Inspirada no Pasquim, a revista satírica ironizava a elite da mídia, com o slogan: “Quem mostra a bunda em Caras não mostra a cara em Bundas”. Durou pouco mais de um ano.
10. Produziu um mural gigante no Canecão
O painel de 180 m² com músicos e dançarinos foi pintado por ele em 1967. A obra está até hoje escondida no antigo Canecão, no Rio.
11. Foi parceiro de Drummond em livros e charges
Drummond e Ziraldo publicaram juntos História de Dois Amores (1985) e O Pipoqueiro da Esquina (1981), misturando poesia e humor gráfico.
12. Seu filho compôs trilhas para “Cidade de Deus” e Shakira
O compositor Antônio Pinto, filho de Ziraldo, foi indicado ao Globo de Ouro em 2007 pela música “Despedida”, com Shakira, para O Amor nos Tempos do Cólera.
13. Pintou super-heróis em obras de arte clássicas
A série “Zeróis”, com heróis pop inseridos em quadros de Picasso e Velázquez, virou exposição no CCBB em 2012 e mostra sua faceta de artista plástico.
14. Foi homenageado por escolas de samba
A Nenê de Vila Matilde (SP) e a Tradição (RJ) fizeram enredos celebrando sua obra. No desfile, o próprio Ziraldo apareceu fantasiado de Menino Maluquinho.
15. Trabalhou pela educação com campanhas sociais
Ziraldo fez cartilhas sobre direitos humanos, combate ao trabalho infantil e alfabetização. Também apresentou o programa infantil ABZ do Ziraldo, na TV Brasil.
Uma vida que não cabia numa só página

Ziraldo não cabe em rótulos. Criou para crianças, para adultos, para leitores de jornal, para sonhadores e críticos — para quem acredita que desenhar é também pensar. Sua obra não se limita ao entretenimento: ela interroga, provoca, educa e acolhe.
Do traço firme à palavra afiada, deixou um repertório generoso e atual para pensar o Brasil. Reler Ziraldo é um presente.



