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Projeto em Campinas ultrapassa barreiras dos sentidos com dança e poesia para pessoas com deficiência visual

Foto: Fábio Barella

O que começou como uma oficina de dança e poesia voltada exclusivamente para mulheres com deficiência visual e surdocegueira, em Campinas, tornou-se um espaço plural de convivência, acolhimento e expressão artística. O projeto “Sinestesia: Dança e Poesia Além dos Sentidos” já reúne 25 participantes e mostra como o toque, o som e a linguagem podem transformar vidas.

Idealizado inicialmente para atender exclusivamente mulheres com deficiência visual, o projeto “Sinestesia: Dança e Poesia Além dos Sentidos” ampliou seu alcance. Atualmente, reúne 17 mulheres e oito homens com cegueira total ou parcial nas oficinas de dança e poesia em Libras realizadas em dois centros culturais de Campinas: o Louis Braille e o CIS-Guanabara, da Unicamp. A proposta é gratuita, tem vagas abertas e é realizada com apoio do ProAC, programa de fomento à cultura do governo do Estado.

A mudança no perfil do público aconteceu de forma espontânea. “Alguns homens começaram a frequentar o espaço durante os intervalos de outros atendimentos e se interessaram pela proposta. Seria injusto excluí-los”, explicou a diretora artística Keyla Ferrari Lopes, responsável pelas aulas. Bailarina, pedagoga, intérprete de Libras e arte-educadora, Keyla viu no gesto uma oportunidade para trabalhar também com danças em dupla, como o forró, e ampliar a vivência corporal entre os participantes.

O projeto valoriza a memória do corpo, o equilíbrio e a afetividade, além de promover a comunicação tátil e sensorial. Cada passo é ensinado pelo toque: o aluno sente o movimento no corpo do professor ou do parceiro. No caso de pessoas surdocegas, a dança em dupla é fundamental, pois a percepção do ritmo vem pela vibração e pelo tato.

Entre as participantes, Paula Neves se destaca como inspiração. Cega desde 2006, é massoterapeuta e preside a Associação Hortolandense de Deficientes Visuais. Ela conheceu a dança em um projeto anterior de Keyla e incentivou outras mulheres a participarem. “A dança nos ajuda na orientação espacial e na coordenação motora. No começo, muitos tinham receio, mas agora já temos até apresentação marcada”, contou. O grupo de Hortolândia, parceiro da iniciativa, se apresenta na próxima sexta-feira (23), às 19h, no Centro de Cultura Escola de Artes Augusto Boal.

Outro destaque é Luiz Pantullo, surdocego com apenas 10% de visão por conta da Síndrome de Usher. Ele se comunica por Libras Tátil e aprendeu a dançar por meio de sinais específicos de toque nas mãos. Sua presença incentivou colegas com deficiência visual a aprenderem Libras, o que levou a professora a desenvolver um método sensorial de ensino da língua. “Elas queriam conversar com o Luiz. Eu decidi ensiná-las como me comunico com ele: pelo tato”, explicou Keyla.

As oficinas oferecem conteúdos em dança contemporânea, criativa, sapateado adaptado e poesia em Libras e Libras Tátil, com integração de elementos visuais no cenário. A culminância será uma apresentação aberta ao público, em que os participantes mostrarão o resultado da vivência artística. “É um espaço de inclusão real. Aqui não se trata só de aprender passos, mas de construir pertencimento e ampliar horizontes culturais”, afirmou Keyla, que também comemora um ano em remissão de um câncer de mama — e encontra nos alunos inspiração diária.

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