Tem gente que diz que o ano começa em janeiro. Eu respeito, mas sigo discordando com a tranquilidade de quem vive no Brasil, trabalha com cultura e aprendeu com a música brasileira que o tempo aqui tem outro compasso. Pra mim, e pra muita gente, o ano só começa pra valer depois do Carnaval. Antes disso, a gente está em modo introdução: aquecendo a voz, afinando instrumento, escolhendo o tom em que vai cantar os próximos meses.
Janeiro e fevereiro são quase um ensaio geral. O corpo ainda está lembrando o ritmo, a cabeça está organizando ideias, a gente ainda tá rascunhando nossas metas e o coração tentando entender como atravessar mais um ano nesse país intenso, contraditório, apaixonante e exaustivo. O Carnaval entra como esse grande rito de passagem. É quando a gente extravasa o que estava acumulado, dança o que ficou preso, canta o que estava engasgado, pra então seguir em frente com mais lucidez.
O Carnaval é uma espécie de ponto e vírgula coletivo.
E aí quando os confetes descansam, os brilhos voltam pras caixas e a quarta-feira de cinzas chega, o Brasil acorda diferente.
Agora começou. Agora estamos prontos para trabalhar, pensar, decidir e enfrentar um ano que não será pouco.
Porque este 2026 que começa no pós-Carnaval vem carregado. Ano de Copa do Mundo — com todas as emoções, projeções e escapismos que o futebol provoca. Ano de eleições — com debates acalorados, disputas de narrativa, excesso de opinião e pouca escuta. Um ano em que o país vai se olhar no espelho muitas vezes e nem sempre vai gostar do que vê.
E, honestamente? Ainda bem que temos a música brasileira.
Ela sempre esteve ali quando o país precisou se entender. Ela atravessou ditadura, redemocratização, crises econômicas, viradas de século, redes sociais e polarizações. Ela ensinou que dá pra falar de política com poesia, de amor com consciência, de dor com beleza. Do samba ao rap, da canção ao funk, do mangue ao interior, a música brasileira nunca se esquivou do debate — mas também nunca abriu mão do afeto.
Então agora é isso: hora de arregaçar as mangas, mas sem perder o balanço. Trabalhar, sim. Debater, claro. Discordar, participar, votar, torcer, se posicionar. Mas sempre com música no fundo — porque ninguém aguenta o Brasil no mudo.
Que comece o ano. Agora é pra valer. E que ele venha no ritmo certo: intenso, crítico, coletivo — e, como sempre, embalado por boa música brasileira.



