Soltar gases pode ser constrangedor, mas é, antes de tudo, um processo natural do corpo. De acordo com o cirurgião do aparelho digestivo Antonio Couceiro Lopes, o intestino pode produzir entre 400 ml e 1,5 litro de gases por dia — volume que varia conforme a alimentação, a microbiota e o ritmo do intestino.
Na maioria das vezes, mudanças no cheiro, na frequência e na sensação de estufamento têm relação direta com o que vai ao prato e com a forma como cada organismo lida com determinados alimentos. Como resume o médico, a intensidade dos sintomas pode refletir “como anda a saúde intestinal e a tolerância individual a certos alimentos”.
O que provoca os gases no intestino
Os gases se formam principalmente quando partes dos carboidratos não são absorvidas no intestino delgado e chegam ao intestino grosso, onde passam por fermentação. “A flatulência é resultado direto da fermentação de carboidratos não absorvidos no intestino grosso”, explica o especialista. Nesse processo, bactérias da microbiota decompõem fibras e carboidratos fermentáveis, liberando gases como hidrogênio e dióxido de carbono.
Outro fator comum é a aerofagia, que é engolir ar ao comer depressa, falar durante a refeição, mascar chiclete, beber refrigerantes ou até em momentos de ansiedade. Parte desse ar sai em arrotos, mas uma fração segue adiante e chega ao intestino.
Alguns itens do dia a dia costumam aumentar a fermentação e, com isso, a formação de gases, como:
· Alimentos altamente fermentáveis, como feijão, lentilha, grão-de-bico, brócolis, couve-flor, cebola e alho
· Aumento abrupto de fibras (mais pela velocidade e quantidade do que pela fibra em si)
· Produtos “zero açúcar” com adoçantes do tipo poliol (como sorbitol e xilitol)
· Intolerância à lactose
· Constipação e sedentarismo, que favorecem retenção e fermentação
· Ansiedade, que pode aumentar a aerofagia e alterar o trânsito intestinal
O médico também chama atenção para um ponto que costuma confundir muita gente: “A chamada ‘sensibilidade ao glúten’ frequentemente está relacionada aos frutanos do trigo, e não ao glúten em si”, afirma.
Cheiro forte é sinal de doença?
Nem sempre. Segundo o especialista, o odor mais intenso costuma estar ligado à presença de compostos de enxofre na mistura — influenciados por alimentos como ovos, carnes, repolho, cebola e alho. “O odor forte não significa maior produção de gases, mas sim maior concentração de compostos sulfurados”, diz.
Ele também faz um alerta sobre interpretações precipitadas: “Odor forte isolado não caracteriza ‘disbiose’”, pontua, explicando que o termo é amplo e ainda não tem um marcador diagnóstico claro na prática clínica.
Quando o excesso de gases pode indicar problema
Apesar de comum, a flatulência merece investigação quando passa a ser persistente ou vem acompanhada de outros sintomas. Alguns sinais que pedem avaliação são:
· Dor abdominal intensa ou inchaço que não melhora
· Diarreia frequente, urgência para evacuar ou estufamento constante
· Alternância entre constipação e diarreia
· Perda de peso involuntária
· Odor muito acentuado e persistente, sem mudança relevante na dieta
· Náusea, refluxo ou sensação de má digestão associada
· Sangue nas fezes, anemia ou histórico familiar de câncer colorretal e doença celíaca
Entre as condições que podem estar por trás do quadro, o médico cita intolerância à lactose, doença celíaca, reações a carboidratos fermentáveis, além de síndrome do intestino irritável e outros distúrbios digestivos que precisam ser diferenciados caso a caso com orientação médica.
Medidas simples para aliviar no dia a dia
Há mudanças práticas que costumam ajudar a reduzir desconforto e melhorar o funcionamento do intestino. Entre as recomendações do especialista estão:
· Mastigar bem e comer mais devagar
· Evitar falar enquanto come e reduzir bebidas gaseificadas
· Observar quais alimentos pioram os sintomas e ajustar a dieta de forma personalizada
· Moderar o consumo de adoçantes poliol
· Praticar atividade física regular
· Tratar constipação e evitar longos períodos sem evacuar
· Avaliar intolerâncias alimentares com orientação profissional
· Usar probióticos apenas quando bem indicados, pois os efeitos variam conforme a cepa e não “corrigem” o intestino de forma genérica
Em resumo: gases fazem parte da fisiologia, mas o contexto importa. Quando o sintoma vira rotina e começa a vir com dor, diarreia, inchaço difícil de controlar ou perda de peso, a recomendação é não normalizar o desconforto e buscar avaliação para definir a causa e a melhor abordagem.



