Vitor Araújo lança TORÓ com a Metropole Orkest

Novabrasil
Novabrasil
Somos uma emissora que privilegia a MPB como alicerce de nossa programação, creditando ao estilo musical sua devida importância como um dos maiores patrimônios brasileiros. Nos colocamos como uma solução multiplataforma que foca em conteúdo para engajar a audiência e aproximá-las de maneira relevante e pertinente das marcas. A Novabrasil faz parte do Grupo Thathi, conglomerado de comunicação que conta com o Portal TH+, além de emissoras de rádio e televisão em mais de 400 cidades de várias regiões do país.

Antes de ser um título, TORÓ é um presságio: em Pernambuco, a expressão tupi-guarani versa sobre o aguaceiro que se ergue do nada, descostura o céu em poucos minutos e se retrai deixando no ar um hálito de barro molhado.

A convite do Holland Festival, Vitor Araújo concebe uma suíte de polirritmias e suspensões tímbricas que confia à força elástica da Metropole Orkest (sob regência de Jacomo Bairos) e a um pequeno núcleo de companheiros de viagem capazes de sustentar, ao mesmo tempo, a ferocidade da percussão popular e a inteligência orquestral. O piano, desta vez, não reivindica centralidade: faz-se ostinato discreto, sustentação harmônica, espaço para que os outros instrumentos respirem.

Ao seu lado pulsa um coração de couros e madeiras. Mauro Refosco, brasileiro radicado em Nova York há três décadas, traz consigo a precisão tribal que o fez parceiro de David Byrne e dos Red Hot Chili Peppers, transformando cada desenho rítmico em geografia — mapas que o sinfônico atravessa sem se enrijecer. Aduni, ogã do mais antigo terreiro nagô do Brasil, convoca os toques e as danças do Nordeste — Côco de Roda, Afoxé, Maracatu, Boi do Maranhão, — como se cada golpe de baqueta abrisse uma porta ritual. Amendoim, também criado no Morro da Conceição, em Recife, e discípulo de Naná Vasconcelos, trabalha o ar entre os tambores: não só ritmo, mas fôlego, murmúrio, o zumbido que antecede o temporal.

Quem costura e desloca continuamente a paleta é Charles Tixier (bateria, synth, MPC, amostras), produtor francês de nascimento mas formado na cena de São Paulo (Ava Rocha, Luiza Lian, Tim Bernardes): seus aportes eletrônicos não “enfeitam”, abrem clareiras. E, na trama melódica, o carioca Felipe Pacheco Ventura deixa a guitarra em equilíbrio entre o bordão e o fraseado, entre o eco das cordas e a filigrana pop: um instrumento-ponte que faz a orquestra roçar a canção sem nela entrar por completo.

Capa do álbum. Foto: Divulgação.

A voz de Araújo — um falsete que parece vapor sobre a pele dos tambores — não busca virtuosismo: busca altura. É aí que TORÓ revela sua gramática, feita de toques e cantos como capítulos sem enredo explícito.

A genealogia brasileira (o fôlego orquestral de Villa-Lobos, a urbanidade harmônica de Jobim) encontra um presente poroso: reflexos de Sakamoto, uma melancolia “radioheadiana” que não é citação, é qualidade de luz. Numa das faixas, um rádio a pilha pontilhando o éter vira instrumento pleno e um órgão de tubos sampleado é decomposto em feixes

sonoros que Tixier monta e desmonta como vitrais cambiantes; pela orquestra circula uma série de doze gestos de cordas, grandes glissandos entregues ao tempo vivo, entre partitura e acaso. É uma música em que a chuva não apenas cai: evapora, retorna, condensa-se num coro de madeira e metal.

Tudo isso foi registrado ao vivo no Holland Festival, em 12 de junho de 2024. Vinte músicos no palco; dois dias de ensaio; o hábito da orquestra de ler à primeira vista; e a percussão pedindo um acordo fino de dinâmicas.

A gravação carrega consigo o risco e o ar do concerto, o grão do som que não teme permanecer humano. Há até um detalhe que parece uma lenda: uma infecção súbita no dedo da mão direita do artista, na véspera da apresentação.

Os médicos sugerem ao festival o cancelamento da noite de espetáculo; Araújo nega, reescreve suas próprias digitações em uma tarde e toca com nove dedos. A ferida vira gesto, como um toró que passa e, ao passar, muda a qualidade da luz.

Se a Metropole Orkest oferece a massa elástica, a memória de um ensemble capaz de atravessar décadas de jazz, cult-pop e trilhas sonoras (e colaborações em sua história que vão de Ella Fitzgerald a Brian Eno), a banda de Araújo imprime direção e atrito: Refosco como bússola percussiva, Aduni e Amendoim como raízes vivas que ligam o Recife ao presente, Tixier como oficina tímbrica, Ventura como linha de sombra melódica. O resultado não “soma” tradições: faz com que conversem até que já não sobrem bordas.

Nascido no Recife, revelação precoce (prêmio APCA de “Artista Revelação” e apontado pela revista Galileu entre “as dez mentes mais brilhantes” do Brasil ainda no início de sua carreira), Araújo atravessou palcos e linguagens: duos com Caetano Veloso, João Donato, Naná Vasconcelos; um álbum com Arnaldo Antunes, “Lágrimas no Mar”, que lhe permitiu rodar o mundo nos últimos anos, e outro, “Levaguiã Terê”, disco solo que o consagrou como autor sinfônico; o cinema internacional (‘Que Horas Ela Volta’ ou indicado ao Oscar ‘Democracia em Vertigem’ são alguns dos exemplos); e, mais recentemente, um intenso trabalho teatral na Europa (Odéon–Théâtre de l’Europe, Comédie de Genève, Avignon, Biennale di Venezia). Com TORÓ, ele condensa tudo isso num único gesto: deixa que cidade e rito, eletrônica e tradição, orquestra e pele de tambor se reflitam na mesma torrente.

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS