A MPB também é feita de amizades que nasceram de forma improvável. A música tem esse poder: o de unir pessoas em encontros muitas vezes inusitados, mas que entram para sempre para a história. Encontros que – muitas vezes – não prometem nada, mas entregam tudo.
Essas cinco duplas são a prova disso! E eles são muito mais do que amigos: são também parceiros musicais!
1 – RITA LEE & ELIS REGINA
Diziam as más línguas que, nos festivais da TV Record, Elis Reginae Rita Lee se evitavam. Diziam também que Elis odiava rock’n roll e que Rita não via chance de amizade com a Pimentinha.
Pois as más línguas estavam completamente erradas! Em 1976, quando Rita Lee foi presa injustamente pela ditadura militar – grávida de cinco meses de seu primeiro filho – Elis Regina foi a primeira e única a estar ao lado da roqueira naquela situação. Ela foi prontamente visitar Rita na prisão, enfrentou os militares e disse que aquilo era um absurdo e que Rita contasse com ela pro que fosse preciso.
Elis ainda ameaçou chamar a imprensa caso não a deixassem ver a então colega de profissão e – após conseguir entrar – ainda exigiu que chamassem um médico para Rita Lee na prisão.
Daquele dia em diante, nasceu uma amizade tão próxima que Elis homenageou a amiga no nome da filha, a – hoje cantora –Maria Rita! Aliás, já naquela época, Rita Lee e Elis Regina passaram a se chamar de“Maria Rita” e “Maria Elis”.
Rita retribuiu o carinho que Elis teve com ela naquela situação delicada, compondo – ao lado de seu eterno parceiro Roberto de Carvalho – amúsica “Doce de Pimenta”, em homenagem à amiga.
Na ocasião, Rita Lee disse que se Elis Regina era mesmo considerada uma “Pimentinha” por conta da sua personalidade forte, apesar da baixa estatura – ela era uma “pimenta muito doce!”. As duas se encontraram para interpretar a canção juntas em um especial de 1978.
A Mãe do Rock brasileiro sempre afirmou que Elis Regina era “a maior cantora do Brasil”.
Mais tarde, em 1980, Rita Lee e Roberto de Carvalho compuseram – a pedido de Elis – a canção “Alô Alô Marciano”, lançada no álbum “Saudade do Brasil”, de 1980. A Pimentinha queria uma música diferente de seu habitual repertório e algo que tivesse o estilo, a personalidade e a identidade musical do casal Rita e Roberto.
2 – MILTON NASCIMENTO & FERNANDO BRANT
O mineiro Fernando Brant era ávido leitor e cinéfilo, o que o fez tornar-se um grande poeta. Estudou Direito e trabalhou como jornalista, até – em meados de 1960 – foi apresentado por um amigo ao genial cantor e compositor Milton Nascimento, que ainda estava começando sua carreira.
Eles estavam dentro de um ônibus, na cidade de Belo Horizonte, e uma fortíssima amizade nasceu ali. Milton convenceu Brant a começar a compor e o convidou para colocar letra – pela primeira vez – em uma melodia sua.
Dessa parceria, nasceu um dos maiores clássicos da música popular brasileira de todos os tempos: a canção “Travessia”, lançada em 1967, que ficou em segundo lugar no II Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro.
Depois do sucesso de “Travessia”, Fernando Brant tornou-se um dos grandes compositores da nossa música e escreveu clássicos com diversos parceiros. Mas a parceria mais produtiva foi – sem dúvida – com seu grande amigo Milton Nascimento: mais de 200 canções, incluindo outros grandes clássicos da MPB, como: “Maria, Maria”, “Ponta de Areia”, “Canção da América” e “Nos Bailes da Vida”.
Juntos, os amigos integraram – ao lado de outros mineiros como Lô Borgese Márcio Borges, Wagner Tiso, Tavinho Moura e Beto Guedes – o Clube da Esquina, um dos maiores e mais importantes movimentos da história da música popular brasileira.
A sonoridade inovadora do Clube da Esquina trazia a fundição das inovações propostas pela Bossa Nova com elementos do jazz, do rock (principalmente dos ingleses The Beatles), da música folclórica, da música regional mineira, erudita e hispânica.
3 – CHICO BUARQUE & TOQUINHO
Toquinho eChico Buarque se conheceram no início da década de 1960, em São Paulo, quando ambos estavam começando suas carreiras musicais e selaram uma amizade que já dura a vida toda.
Ainda em 1964, a primeira melodia de Toquinho recebeu uma letra, escrita por Chico: surgia então a canção “Lua Cheia”, primeira música de Toquinho a ser gravada em disco, três anos depois, no LP “Chico Buarque de Hollanda – Volume 2”.
Em 1968, Toquinho foi pela primeira vez para a Europa, fazer os arranjos de um disco de Chico Buarque e apaixonou-se por Roma, cidade em que Chico havia se exilado, por conta dos tempos duros de perseguição aos artistas e às liberdades, em plena ditadura militar.
Em 1969, Toquinho voltou à cidade para fazer uma temporada de shows ao lado do amigo – somente os dois e seus violões – e acabou ficando lá por seis meses.
Antes de voltar para o Brasil, Toquinho deixou um tema de despedida pelo tempo que passaram juntos, para que Chico colocasse a letra. Assim, nasceu a canção “Samba de Orly”, lançada no álbum “Construção”, de 1971: “Vai meu irmão, pega esse avião, você tem razão de correr assim deste frio… Vê como é que anda aquela vida à toa, e se puder, me manda uma notícia boa”.
A parceria musical de Toquinho e Chico Buarque se estendeu para outros clássicos, como “Samba para Vinicius”, em homenagem a Vinicius de Moraes. Com letra Chico e música de Toquinho, acanção – lançada no álbum “Toquinho & Vinicius”, de 1974 – sintetiza perfeitamente o “Poetinha”, com a primeira parte toda iniciando predominantemente com a letra P, de Poeta, e a segunda parte com a letra V, de Vinicius.
4 – CAZUZA E BEBEL GILBERTO
Nos palcos do Rio dos anos 80, Bebel Gilberto e Cazuza se encontraram e viraram irmãos de alma.
Ambos já nasceram em ambientes muito musicais: ela, filha de – ninguém mais ninguém menos que – João Gilberto, o “Pai da Bossa Nova”, e da cantora Miúcha, portanto, sobrinha de Chico Buarque. Ele, filho do fundador da gravadora Som Livre, João Araújo, e da ex-cantora Lucinha Araújo.
Cazuza era o amigo das 4h da manhã, das lareiras em Petrópolis e das músicas compostas em 40 minutos. Tão inseparável que, certa vez, nos anos 80, ao ir se despedir de Bebel no aeroporto um dia, simplesmente o amigo comprou uma passagem e embarcou junto!
Juntos, Bebel Gilberto e Cazuza formaram também uma bela parceria musical: um exemplo é o imenso sucesso “Preciso Dizer Que Te Amo” (dois dois em parceria com Dé, integrante doBarão Vermelho na época), que entrou para o seu EP de estreia de Bebel Gilberto, em 1986.
Também em parceria com Dé Palmeira, a dupla de amigoscompôs as canções “Mais Feliz” e “Amigos de Bar”, que entraram para o mesmo disco. E só de Bebel e Cazuza, podemos destacar o sucesso “Mulher Sem Razão”, do álbum de Cazuza, “Burguesia”, de 1989.
5 – FAGNER & ROBERTO MENESCAL
Quando o cantor e compositor cearense Fagner chegou ao Rio de Janeiro ainda um artista desconhecido, no início da década de 70, ele enfrentou dificuldades financeiras.
Foi quando ele conheceu Roberto Menescal, um dos mais importantes nomes da Bossa Nova, produtor musical e então diretor artístico da gravadora Polygram, que apresentou a sua música “Mucuripe”- em parceria com o também cearense Belchior – para a já nacionalmente famosa cantora Elis Regina, que gravou a canção no seu álbum “Elis“, de 1972.
Elis Regina e seu então marido, Ronaldo Bôscoli, chegaram a acolher Fagner em sua casa, oferecendo-lhe apoio e moradia por alguns meses, antes dele estourar nacionalmente.
Já a amizade de Fagner com Roberto Menescal perdura por décadas e resultou até em uma recente musical: agora em 2026, os amigos se uniram para o álbum “Raimundo Bossa Nova Fagner”, com produção e arranjos de Menescal. O projeto, que inclui releituras de clássicos, marca uma nova fase na carreira de Fagner, explorando um estilo diferente do seu habitual, com o violão de Roberto Menescal em destaque.



