Por muito tempo, o envelhecimento masculino foi tratado como um processo “natural” e inevitável, muitas vezes sem espaço para conversa ou atenção médica. Mas, segundo o endocrinologista Filippo Pedrinola, a ciência da longevidade vem mostrando que mudanças hormonais progressivas, especialmente a queda da testosterona, podem ter efeitos reais no bem-estar do homem ao longo dos anos.
Esse processo é conhecido como andropausa, ou, de forma mais precisa, “deficiência androgênica do envelhecimento masculino”. Ao contrário do que muita gente imagina, não se trata de uma virada repentina. “Diferentemente da menopausa feminina, a andropausa não ocorre de maneira abrupta nem apresenta um marco claro”, afirma o médico. O resultado é que os sinais costumam ser subestimados ou confundidos com estresse, excesso de trabalho ou “coisas da idade”.
Queda de testosterona pode passar anos sem ser percebida
A testosterona tende a diminuir gradualmente a partir dos 40 anos, com “uma redução média de cerca de 1% ao ano”, explica Pedrinola. Esse declínio pode ser acelerado por fatores como sedentarismo, obesidade, privação de sono, estresse crônico e doenças metabólicas.
Os sintomas, segundo ele, podem aparecer de formas diferentes e nem sempre são óbvios. Entre os mais comuns, estão:
- · Físicos: perda de massa e força muscular, aumento de gordura abdominal, fadiga persistente e redução da densidade óssea.
- · Emocionais e cognitivos: queda de motivação, irritabilidade, alterações de humor, dificuldade de concentração e sensação de menor clareza mental.
- · Sexuais: diminuição da libido, redução da frequência de ereções espontâneas e queda da performance sexual.
Como essas mudanças “surgem de forma lenta e progressiva”, o médico observa que muitos homens podem conviver com os sinais por anos antes de buscar avaliação.
Não é só sobre sexo: hormônio influencia energia e metabolismo
Outro ponto central, de acordo com o endocrinologista, é que “reduzir a testosterona apenas à função sexual é um erro comum”. Ele ressalta que o hormônio também participa da regulação da energia, do metabolismo e da composição corporal.
O médico aponta que níveis adequados de testosterona estão associados a:
- · Maior vitalidade física e mental
- · Preservação da massa muscular e controle da gordura visceral
- · Melhor sensibilidade à insulina e equilíbrio metabólico
- · Estabilidade emocional, autoestima e bem-estar
Já a deficiência androgênica, segundo o texto, tem sido relacionada ao aumento do risco de síndrome metabólica, diabetes tipo 2, sarcopenia, osteoporose e doenças cardiovasculares, especialmente quando combinada a hábitos pouco saudáveis.
Diagnóstico exige avaliação completa e cuidados vão além de reposição
Para Pedrinola, a investigação não deve se basear apenas em sintomas soltos ou em um único exame. “O diagnóstico da andropausa não deve ser feito apenas com base em sintomas isolados ou em um único exame laboratorial”. A orientação é que a avaliação seja completa e personalizada.

Entre os pontos que podem fazer parte dessa análise:
- · Dosagem de testosterona total e livre, preferencialmente pela manhã
- · Avaliação de outros marcadores hormonais e metabólicos
- · Análise da composição corporal, sono, estresse e estilo de vida
O cuidado, porém, não se limita a medicamentos. Ele destaca que “mudanças no estilo de vida são pilares fundamentais”, incluindo:
- · Exercícios de força e atividade física regular
- · Alimentação equilibrada e anti-inflamatória
- · Sono de qualidade e manejo do estresse
Quando indicada, a reposição pode entrar como ferramenta, mas com critério. “Quando bem indicada, a terapia de reposição de testosterona pode ser uma ferramenta segura e eficaz, desde que realizada com critério, acompanhamento médico e monitorização contínua”, afirma.
Resumindo a ideia central: reconhecer o quadro não significa transformar o envelhecimento em doença. “Reconhecer a andropausa não significa medicalizar o envelhecimento, mas sim compreender as transformações naturais do corpo masculino e agir de forma preventiva”, explica. O foco é “viver com energia, autonomia e qualidade de vida”.



