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Joyce e Tutty Moreno, mestres do samba sofisticado, anunciam o álbum “Joyce e Tutty Moreno JID027”

Joyce e Tutty Moreno, a lendária dupla de voz, violão e bateria que ajudou a definir o som da música popular brasileira, se juntaram a Adrian Younge para criar “Joyce e Tutty Moreno JID027”.

Antecipando a chegada do projeto, o primeiro single, “Janeiro”, já está disponível nas plataformas digitais. O álbum, construído com maestria, captura a beleza etérea da improvisação coletiva, o peso da saudade e o inquebrável laço musical entre dois dos artistas mais reverenciados do Brasil.

Frequentemente aclamada como a “voz feminina da música brasileira”, Joyce é cantora, violonista, compositora e arranjadora, dona de uma carreira que atravessa mais de cinco décadas. Com uma discografia de mais de 30 álbuns, ela é uma das pioneiras da cena da MPB dos anos 1960 e uma força fundamental no jazz brasileiro.

Seu marido e parceiro musical, Tutty Moreno, é um dos bateristas mais prestigiados do país, conhecido pelo toque delicado, pelo suingue e por décadas de parcerias com nomes que vão de Tom Jobim a Hermeto Pascoal. Juntos, eles representam o auge da sofisticação musical brasileira.

Tutty Moreno. Foto: Divulgação.

O que destaca Joyce no panteão da música nacional é a sua voz singular como compositora. Em uma época dominada por homens, Joyce despontou como a única mulher de sua geração a ser acolhida de igual para igual entre gigantes como Milton Nascimento, Toninho Horta, Marcos Valle e João Donato.

Sua capacidade de brilhar nesse meio reflete não apenas o seu talento extraordinário, mas também a sua resiliência como mulher em uma indústria que vivia a pressionando para simplesmente cantar o que as gravadoras exigiam. Ela não cedeu. Ela escreveu. Ela fez os arranjos. Ela traçou o próprio caminho. E esse espírito de independência e integridade criativa pulsa em cada nota do álbum JID027.

O projeto começou a ganhar vida quando Adrian Younge e Andrew Lojero vieram ao Rio de Janeiro convidar Joyce e Tutty. O amigo do casal, João Donato, que já havia lançado o seu próprio disco JID007 pelo selo Jazz Is Dead, endossou a ideia e deu a sua bênção. O plano inicial era que Joyce e Tutty viajassem a Los Angeles para um show com Donato e, na mesma ocasião, gravassem o disco com Younge: um verdadeiro encontro de mentes criativas cruzando gerações e continentes.

De forma trágica, durante os preparativos para a viagem, Donato adoeceu gravemente. Em um único e comovente ensaio no Rio de Janeiro, ficou claro que a lenda de 89 anos sentia muitas dores. “Não conseguimos nem terminar o ensaio,

de tanto que ele estava sofrendo”, relembra Joyce. Diagnosticado com um tumor na coluna a poucos dias da viagem, Donato não pôde embarcar e faleceu logo em seguida.

“Preciso dizer que este trabalho foi feito em um momento muito difícil para mim e para o Tutty, porque nosso grande amigo e parceiro João Donato foi internado justamente nesse período, e nos deixou logo depois”, conta Joyce. Tutty completa: “Nossas cabeças e nossos corações estavam com Donato”.

Mesmo lidando com um imenso peso emocional, Joyce e Tutty viajaram para Los Angeles. O show, acompanhado por uma banda impecável de músicos locais, teve ingressos esgotados. Já as sessões de gravação, realizadas no estúdio Linear Labs de Younge, acabaram se tornando um processo de catarse. Joyce levou as partituras de suas composições pensadas para o disco, enquanto Younge contribuiu com bases instrumentais sobre as quais Joyce improvisou melodias e letras com um instinto brilhante. A bateria de Tutty — sutil, precisa e profundamente imersa na emoção — serviu de âncora para cada uma das sessões.

O álbum traz um equilíbrio delicado entre a composição prévia e o improviso. As faixas de Joyce — “Mandala”, “Uanã Etê”, “Is This Love”, “Fingers” e “Janeiro” — dividem espaço com os temas instrumentais de Younge, nos quais a voz da cantora se transforma em um instrumento de sopro, uma flauta, um rio de melodias sem palavras.

O encerramento fica por conta de “Círculo Vicioso”, uma recitação do icônico poema de Machado de Assis. Declamada no português nativo de Joyce, a faixa se torna uma meditação sobre a vida, a morte e a natureza cíclica da arte.

Joyce e Tutty Moreno JID027 é uma prova da perenidade da arte do casal: um registro de dois mestres trabalhando no auge de suas capacidades, transformando o luto em beleza e nos lembrando por que a voz de Joyce, tanto escrevendo quanto cantando, segue sendo indispensável.

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