A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras”, que prometem perda de peso de forma rápida e prática, deixou de ser um fenômeno restrito aos mais jovens e tem crescido também entre idosos.
O problema, alertam especialistas, é que a busca por resultados na balança pode trazer efeitos indesejados em uma fase da vida em que preservar força e independência costuma ser mais importante do que simplesmente reduzir medidas.
A geriatra Julianne Pessequillo afirma que os medicamentos injetáveis usados hoje para obesidade — originalmente desenvolvidos para diabetes tipo 2, exigem ainda mais cautela em pessoas mais velhas. “Reduzir peso sem perder força e autonomia é prioridade, porque a perda de massa muscular pode aumentar risco de quedas e dependência”, alerta a médica.
Entre os produtos mais conhecidos estão:
- · Semaglutida (como Wegovy ou Ozempic)
- · Tirzepatida (como Mounjaro ou Zepbound)
Esses remédios atuam em receptores hormonais ligados ao intestino e ao cérebro, o que pode diminuir o apetite e aumentar a sensação de saciedade. Também retardam o esvaziamento do estômago. Combinados a dieta e atividade física, podem levar a perdas médias de 10% a 20% do peso corporal, segundo descreve a especialista.

Por que o risco pode ser maior na terceira idade
Embora o emagrecimento possa beneficiar alguns pacientes, a avaliação em idosos precisa ser individualizada. Com o envelhecimento, há uma tendência natural de perda de massa muscular — a sarcopenia — e, de acordo com Pessequillo, o uso indiscriminado dessas medicações pode acelerar essa redução e até afetar a saúde óssea.
Outro ponto de atenção são os efeitos colaterais relativamente comuns, como náuseas, vômitos, sede e menor ingestão de alimentos. Em idosos, isso pode ter impacto mais grave por haver menor “reserva” do organismo para lidar com desidratação e mudanças bruscas. “Sem supervisão, esses sintomas podem favorecer distúrbios hidroeletrolíticos e comprometer a função renal, além de causar confusão mental”, explica a geriatra.
A médica também chama atenção para a possibilidade de descompensar problemas já existentes, como diabetes, hipertensão e insuficiência cardíaca. O emagrecimento acelerado pode alterar pressão arterial e níveis de glicose e, em alguns casos, aumentar a sobrecarga para o coração, com risco de alterações do ritmo cardíaco.
Há ainda o risco de ingestão insuficiente de nutrientes, com aumento de deficiências nutricionais — como a de vitamina B12, citada pela especialista.
Acompanhamento e plano completo fazem diferença
Antes de iniciar esse tipo de tratamento, a recomendação é que o idoso passe por avaliação do estado nutricional e da composição corporal, com exames como bioimpedância, além de receber um plano alimentar e de atividade física ajustado à realidade e às limitações de cada pessoa.
Pessequillo destaca que o uso deve ser feito com indicação adequada, ajuste individualizado de dose e acompanhamento regular. “Sem um plano bem estruturado, o benefício pode ser frustrante e limitado”, afirma. Ela acrescenta que, ao interromper o medicamento, o peso frequentemente volta com rapidez.
Versões manipuladas elevam o perigo
Além do uso sem orientação, outra preocupação é o consumo de versões manipuladas ou de procedência duvidosa. Segundo a especialista, esses produtos podem apresentar impurezas, conter moléculas diferentes das estudadas clinicamente e até contaminação por toxinas bacterianas.
No fim, embora essas injeções tenham mudado o cenário do tratamento da obesidade, o alerta é para que não sejam tratadas como “atalho”, especialmente na terceira idade. “O objetivo deve ser preservar saúde, qualidade de vida e autonomia, e não apenas reduzir o número na balança a qualquer custo”, conclui a geriatra.


