Vamos falar sobre autismo? Entenda o que muita gente chama de “rigidez”

Elizabeth Crepaldi
Elizabeth Crepaldi
Dra. Elizabeth Crepaldi de Almeida Fonoaudióloga e doutora em Educação, Elizabeth tem mais de 40 anos de atuação na área de distúrbios da comunicação e, desde 2012, atua no trabalho com Autismo no Brasil, tendo orientado famílias brasileiras inclusive no exterior, como Irlanda e Canadá. Atualmente, está à frente do Grupo Interclínicas.

Sou fonoaudióloga especializada em Transtorno do Espectro Autista há quatro décadas. Neste tempo, sempre observei muita gente chegar até mim dizendo: “meu filho é muito rígido”. A gente entende o que isso quer dizer, mas tecnicamente não é bem isso que pode estar acontecendo. O que muita gente chama de “rigidez”, pode ter relação, na verdade, com a falta de exercitar a flexibilidade no autismo.

Na prática, o que vemos é um controle muito restrito de estímulo e uma baixa variabilidade comportamental. Ou seja: a criança aprende, sim. Mas aprende de um jeito só. E quando alguma coisa muda, e isso é fácil de acontecer na vida real, tudo desorganiza.

A “rigidez” no autismo aparece no dia a dia de formas muito claras: a criança que só faz se for daquele jeito, a criança que aprendeu uma coisa, mas não consegue usar em outro contexto, aquela que se perde quando a regra muda, ou que se frustra quando o mundo não responde como ela espera.

E aqui tem um ponto importante: isso não é teimosia, não é “birra”. É falta de repertório para lidar com mudanças. Aprender não é só acertar, aprender é conseguir variar.

E é exatamente aí que a gente entra. Na Interclínicas, a gente não trabalha só para a criança responder certo. A gente trabalha para que ela não dependa de um único jeito de fazer.

Para isso, a gente muda o formato, muda o material, muda a ordem, muda o contexto, apresenta vários exemplos e ensina a criança a lidar com situações diferentes.

E, o mais importante: coloca em grupo. No grupo, a criança vê o outro fazendo diferente, errando, acertando de outro jeito. E isso amplia muito o repertório, faz diferença.

Quando você trabalha só no individual, muitas vezes parece que está indo bem, mas a verdade é que você não tem parâmetro. No grupo, não.

No grupo, fica evidente: quem está variando, quem está preso, quem consegue adaptar, quem não consegue. Neste contexto, a “rigidez” no autismo perde espaço e a flexibilidade começa a aparecer de verdade.

A gente também ensina relações importantes: igual, diferente, antes, depois, maior, menor — mas não como conteúdo escolar. E, sim como uma forma de organizar o pensamento.

A gente ensina, principalmente, a criança a tolerar mudança com segurança, porque a vida não é previsível.

Então, não. Seu filho não é “rígido”. Ele só ainda não aprendeu a variar.

Isso, com a intervenção certa, a gente ensina.

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