Namorar homem preto não te faz antirracista

O caso Virginia e Vini Jr. ensina muito mais do que parece

Thaís Cremasco
Thaís Cremasco
Thaís Cremasco é uma advogada e ativista reconhecida por sua atuação estratégica na defesa dos Direitos Humanos. Sua expertise é fundamentada pela especialização em Gênero e Saúde da Mulher pela Universidade de Stanford (EUA), pela pós-graduação em Direito do Trabalho e Previdenciário e por certificações em Violência Baseada em Gênero de agências das Nações Unidas (UNICEF). É também professora de direito trabalhista na pós-graduação em Direito da Mulher.Sua liderança institucional inclui posições de destaque, como Conselheira Estadual da OAB/SP por dois triênios (2021–2024 e 2025–2028), Coordenadora do Núcleo de Violência contra a Mulher da OAB/SP e Presidente da Associação dos Advogados Trabalhistas de Campinas. Seu trabalho foi reconhecido com o Prêmio "Mulheres de Destaque" da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) e o Prêmio de Mérito Jurídico "Elbino Silva Filho" da Câmara Municipal de Campinas.Com uma trajetória internacional que inclui a representação do Brasil na Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra, e a participação na Comissão de Combate ao Assédio do TRT-15 (representando a OAB), Thaís é uma voz influente no debate público. Atua como colunista na CBN (programa "Mulher em Pauta"), Jovem Pan ("Linha de Frente") e Revista Fórum.Cofundadora do Coletivo Mulheres pela Justiça, seu ativismo em causas raciais e de gênero é marcado por resultados transformadores, sendo responsável pelo caso que levou à primeira expulsão de alunos por racismo na história do Brasil. Como palestrante, leva sua abordagem que une teoria, empatia e transformação social a instituições de renome como a Universidade de Coimbra, Justiça do Trabalho e SENAC.Atuando nos principais casos de violência contra a mulher, direitos trabalhistas e racismo do país, Thaís Cremasco consolidou sua reputação por uma postura firme, humanista e comprometida com a justiça social.
Foto: Reprodução Instagram

Quando a Virginia anunciou o fim do namoro com o Vini Jr., minha primeira reação foi de solidariedade. Sete meses de relacionamento, entrega de verdade, e — segundo o colunista Leo Dias — traições acontecendo nos bastidores enquanto ela acreditava que estava construindo algo sério. Enquanto ela se permitia amar, ele fazia outras escolhas.

Isso dói. E não é pouca coisa, não. Traição não é só “dar uma escorregada”. É uma escolha consciente de colocar o que você quer acima do que a outra pessoa sente. É uma violência emocional que a gente normaliza demais, como se fizesse parte do pacote de estar num relacionamento. Não faz. Nunca fez. E quando a traição é repetida, escondida, premeditada — ela é mais cruel ainda, porque rouba da outra pessoa a chance de decidir se quer continuar ou não.

Virginia foi vítima disso. E merece que a gente reconheça. Ela foi respeitosa, digna, saiu pela porta da frente sem precisar expor ninguém. Chapéu pra ela.

Mas eu preciso ser honesta com você, leitora. Porque não dá pra fechar essa história aqui. Seria fácil demais, e a gente merece mais do que o fácil.

Durante o namoro, Virginia deu uma entrevista e disse que o Vini Jr. já estava “acostumado” a ser chamado de feio na internet. A frase passou batida pra muita gente. Mas não passou pra mim. Porque “acostumado” é exatamente o que a sociedade espera de homens negros: que engulam, que normalizem, que se acostumem com o que não deviam ter que aguentar nem um dia sequer.

O que ela não disse — e que poderia ter dito com os seus mais de 50 milhões de seguidores — é que os ataques à aparência do Vini Jr. não são neutros. Eles têm nome: racismo. Desumanizar o corpo negro, chamar de feio, de macaco, de primitivo — isso não é opinião sobre estética, é ódio estrutural. É o mesmo ódio que atravessa séculos. E fingir que não é, ou pior, achar que alguém “se acostuma” com isso, é uma forma de compactuar.

Quando o Vini foi alvo de racismo explícito na Champions League, Virginia republicou o desabafo dele nos stories com um coraçãozinho. Só isso. Luana Piovani foi quem perguntou em voz alta o que muita gente pensou em silêncio: por que quem tem 50 milhões de seguidores não usou essa plataforma pra falar sobre o que aconteceu de verdade?

E aqui chegamos no ponto que eu quero que fique com você: namorar um homem preto não te torna antirracista. Nenhum amor faz isso sozinho. Nenhuma relação, por mais intensa que seja, substitui o trabalho interno que o antirracismo exige de cada um de nós.

Antirracismo é prática diária. Passa por estudo, por desconforto, por usar a voz quando você tem uma — principalmente quando a pessoa ao seu lado carrega uma luta que você nunca vai precisar travar no próprio corpo. Virginia teve diversas oportunidades de ser essa voz. E em todas elas, escolheu o silêncio conveniente.

Não estou dizendo que ela é vilã. Estou dizendo que ela é o espelho de muitas de nós. Quantas vezes a gente achou que o afeto era suficiente? Que amar alguém já resolvia tudo? Que estar ao lado de uma pessoa já nos tornava aliadas da causa dela?

Enquanto isso, o Vini construiu um instituto, criou um escritório jurídico antirracista e no Dia da Abolição da Escravatura, 13 de maio, escreveu: “A liberdade não chegou para todo mundo.” Ele carrega esse peso sozinho, com o Brasil nas costas, dentro e fora dos gramados.

Que essa história sirva de lição — sobre traição, sobre silêncio, e sobre o trabalho que é, todo dia, ser antirracista de verdade. Amor sem consciência não basta. Nunca vai bastar.

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