Tomar anti-inflamatórios por conta própria para aliviar dores no dia a dia pode parecer inofensivo, mas o hábito merece atenção. Esses medicamentos, muito usados contra dor e inflamação, podem afetar o funcionamento dos rins, especialmente quando consumidos de forma repetida, em doses elevadas ou por períodos longos.
A nefrologista Carlucci Ventura explica que os anti-inflamatórios não esteroides (AINES) interferem em substâncias do corpo chamadas prostaglandinas, que ajudam a manter o fluxo de sangue adequado nos rins. “Ao bloquear esse mecanismo, o remédio pode reduzir a circulação nos rins e comprometer a capacidade de filtrar o sangue”, afirma.

Em pessoas saudáveis, o uso eventual tende a ser melhor tolerado. O problema, segundo a especialista, é quando o organismo já está em situações que naturalmente diminuem a irrigação dos rins. Casos de desidratação, infecções, exercícios intensos ou jejum prolongado, por exemplo, podem aumentar a vulnerabilidade.
Outro ponto de atenção é o uso combinado com diuréticos, já que esses medicamentos podem reduzir o volume de sangue que chega aos rins, elevando o risco de disfunção renal.
Quem corre mais risco
Alguns grupos são mais suscetíveis aos efeitos renais dos anti-inflamatórios. Idosos e pessoas com hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca ou doença renal prévia exigem cuidado redobrado, porque os rins já podem estar trabalhando sob maior fragilidade.
O alerta é reforçado pelo fato de que o dano pode evoluir sem sinais claros. “Os rins raramente causam dor, e o comprometimento pode se instalar de forma silenciosa”, destaca Carlucci Ventura. Muitas vezes, a alteração só aparece em exames, como aumento da creatinina no sangue ou queda da taxa de filtração renal.
Quando sintomas surgem, o quadro pode já estar mais avançado. Entre os sinais possíveis estão diminuição do volume urinário, inchaço, fadiga e mal-estar.
Uso consciente e formas de reduzir o problema
A recomendação não é tratar esses remédios como vilões, mas usar com critério. O risco, na prática, costuma estar ligado à automedicação frequente e à ideia de que, por serem comuns, não oferecem perigos.
Para dores crônicas ou recorrentes, a orientação é buscar avaliação clínica em vez de apenas “repetir o remédio”. Em alguns casos, podem ser considerados analgésicos com perfil de segurança mais favorável. Em outros, medidas não farmacológicas ajudam a reduzir a necessidade de medicação, como:
- fisioterapia;
- fortalecimento muscular;
- ajustes posturais;
- controle de peso.
Manter boa hidratação e acompanhar a função renal com exames simples também é parte importante da prevenção, especialmente para quem está em grupos de risco. Entre os testes mais usados estão a dosagem de creatinina no sangue e o exame de urina.
“Quando a dor se torna frequente, o melhor caminho não é repetir o anti-inflamatório, mas investigar a causa”, alerta a nefrologista. Para especialistas, pequenos ajustes no momento certo podem evitar danos permanentes e preservar a saúde dos rins a longo prazo.

