Agora para contratar empréstimos consignados a biometria passa a ser obrigatória

Luciana Ikedo
Luciana Ikedo
Planejadora financeira CFP®, escritora e palestrante internacional, com abordagem de planejamento financeiro holístico. Possui dois MBAs pela FGV, com extensão na University of Tampa e na Ohio University (EUA), além de especialização em Finanças pelo Ibmec/Insper e FIA/USP. Em 2025, foi mediadora e palestrante em painéis da COP 30, realizada no Brasil. É autora do livro Vida Financeira – Descomplicando, Economizando e Investindo (Editora Loyola), finalista do Prêmio XP de Educação Financeira em 2023, e conselheira fiscal do IBPC.
lUCIANA IKEDO

Começam a valer as novas regras para contratação de empréstimo consignado para quem é beneficiário do INSS e esse é um tema que merece atenção.

A partir de agora, será obrigatória a confirmação por biometria facial. O beneficiário escolherá a instituição financeira de sua preferência, negociará as condições, assinará o contrato, mas depois disso terá que entrar no próprio aplicativo Meu INSS para validar a contratação por biometria facial vinculada ao Gov.br. O prazo para essa confirmação é de até 5 dias corridos e, se não for feita, a contratação do empréstimo será cancelada.

Depois de tantos escândalos envolvendo a contratação fraudulenta de empréstimos consignados, essa medida tem o objetivo de aumentar a segurança e evitar fraudes, especialmente para aposentados e pensionistas, que historicamente, é um publico mais vulnerável aos golpes financeiros.

Além disso, a contratação por telefone está proibida. Será que agora as ligações de números desconhecidos diminuirão? Sinceramente eu espero que sim.

Além da biometria, há outras mudanças importantes. A margem consignável passa de 45% para 40%, deixando de reservar uma parte específica para o cartão de crédito consignado. O prazo máximo de pagamento também aumentou: antes era de até 96 meses, ou seja, 8 anos; agora pode chegar a 108 meses, o equivalente a 9 anos.

Embora o crédito consignado geralmente tenha juros menores do que outras modalidades, ele não deixa de ser uma dívida. E, no caso do consignado, é uma dívida que compromete diretamente a renda mensal do beneficiário, porque as parcelas são descontadas antes mesmo de o dinheiro cair na conta.

Por isso, é fundamental olhar com muito cuidado para o impacto desse empréstimo no orçamento familiar. Estamos falando de uma possibilidade de endividamento por quase uma década. Nove anos é muito tempo. A vida muda, os custos aumentam, podem surgir despesas médicas, necessidade de ajudar familiares, reformas na casa, imprevistos e outras situações que exigem flexibilidade financeira.

E o alerta fica ainda mais importante quando olhamos para o cenário de endividamento das famílias brasileiras. Segundo a CNC, em abril de 2026, 80,9% das famílias estavam endividadas. Além disso, 29,7% tinham dívidas em atraso e 12,3% afirmavam que não teriam condições de pagar essas dívidas.

Ou seja, o crédito pode ser uma ferramenta útil quando bem utilizado, mas também pode se transformar em um problema quando é contratado sem planejamento.

Outro cuidado essencial é com o acesso ao Gov.br. A senha, a biometria e os dados de acesso não devem ser compartilhados com terceiros, parentes, conhecidos, correspondentes bancários ou pessoas que se ofereçam para “ajudar” na contratação. Dar acesso ao próprio Gov.br é abrir uma porta muito sensível da vida financeira e previdenciária.

Minha orientação é: antes de contratar, avalie se o empréstimo é realmente necessário, compare taxas, entenda o valor total que será pago ao longo do tempo e veja quanto da renda ficará comprometida. Crédito não deve ser usado apenas porque está disponível. Ele precisa fazer sentido dentro de um planejamento financeiro.

Mais segurança é uma boa notícia. Mas segurança tecnológica precisa vir acompanhada de educação financeira, cuidado com golpes e consciência sobre o impacto de uma dívida de longo prazo no orçamento da família.

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