Por que jogadores rasgam os meiões? Especialista explica

Reprodução

Desde a Copa do Mundo de 2022, um detalhe curioso passou a chamar a atenção dos torcedores: os meiões rasgados usados por diversos jogadores durante as partidas. As imagens rapidamente viralizaram nas redes sociais e levantaram questionamentos sobre a função daqueles cortes na região da panturrilha.

Apesar de ter ganhado mais visibilidade nos últimos anos, a prática não é nova. Diversos atletas já adotavam a técnica anteriormente, incluindo Neymar.

Nesta Copa do Mundo, a cena voltou a chamar atenção. Na partida entre Alemanha e Costa do Marfim, o atacante Leroy Sané entrou em campo com o meião rasgado na região da panturrilha.

Mas afinal, por que os jogadores rasgam os meiões?

Segundo Diego Galace de Freitas, fisioterapeuta especialista em musculoesquelética e pós-doutor pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP), a principal explicação está relacionada à pressão exercida pelo tecido sobre a musculatura da panturrilha.

De acordo com o especialista, muitos atletas passaram a relatar desconforto na região posterior da perna durante treinamentos e jogos. Com isso, alguns começaram a fazer pequenos cortes nos meiões para aliviar a compressão exercida pelo material.

A panturrilha é uma das regiões mais exigidas durante uma partida de futebol. Movimentos como arrancadas, mudanças bruscas de direção, saltos e desacelerações constantes geram grande sobrecarga muscular. Por isso, qualquer sensação de aperto excessivo pode causar desconforto ao atleta ao longo dos 90 minutos.

Segundo o fisioterapeuta, os meiões modernos costumam ser produzidos com materiais mais elásticos e ajustados ao corpo, o que pode aumentar a sensação de compressão em alguns jogadores, especialmente naqueles que possuem maior volume muscular na panturrilha.

Embora a prática tenha se popularizado e seja adotada por atletas de alto rendimento em diferentes ligas do mundo, Freitas ressalta que ainda não existem evidências científicas que comprovem seus benefícios.

“Não encontramos na literatura científica estudos que demonstrem de forma objetiva que rasgar os meiões melhora o desempenho esportivo ou previne lesões. É algo muito mais baseado na percepção individual dos atletas”, afirma.

Ainda assim, o especialista considera que a explicação fisiológica faz sentido. Ao reduzir a pressão exercida pelo tecido sobre a musculatura, o jogador pode experimentar uma sensação maior de conforto durante a atividade física. Em alguns casos, isso pode até ajudar a minimizar incômodos relacionados ao esforço repetitivo da região.

Por outro lado, é importante destacar que rasgar os meiões não elimina o risco de lesões musculares nem substitui estratégias comprovadas de prevenção, como fortalecimento muscular, controle de carga de treinamento, recuperação adequada e acompanhamento médico e fisioterapêutico.

QUEM LANÇOU A MODA?

Um dos primeiros jogadores a popularizar a técnica foi o galês Gareth Bale. Quando defendia o Real Madrid, o ex-atacante passou a aparecer em campo com furos e cortes nos meiões na região da panturrilha.

Na época, Bale acreditava que a prática ajudava a aliviar a tensão muscular e poderia reduzir o risco de novas lesões no local, um problema recorrente ao longo de sua carreira. As imagens do jogador rapidamente ganharam repercussão e ajudaram a disseminar o hábito entre atletas profissionais.

No entanto, muitos especialistas apontam que a estratégia pode ter um efeito mais psicológico do que clínico. Isso porque, mesmo utilizando os meiões rasgados, Bale continuou convivendo com problemas musculares. Em uma única temporada no Real Madrid, por exemplo, o galês sofreu três lesões na panturrilha.

Dessa forma, os cortes nos meiões parecem estar mais relacionados à busca por conforto e à percepção individual dos atletas do que a uma vantagem comprovada cientificamente.

YASMIN CAITANO / Folhapress

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