Médico afastado acusa Santa Casa de gestão temerária e faz denúncia ao MP

Médico Anderson Dutra denuncia risco de contágio em UTI e acusa direção do hospital de não executar plano de contingenciamento aprovado

Médico acionou a PM ao ser impedido de entrar no hospital | Foto: Reprodução

O médico pediatra Anderson Azevedo Dutra denunciou a Santa Casa de Araçatuba por gestão temerária ao Ministério Público, alegando que a administração da instituição, comandada pelo Provedor Dr. Everton Henrique, não executou plano de contingenciamento emergencial que teria evitado a exposição de recém-nascidos prematuros a riscos de contágio. A denúncia foi protocolada no dia 10 de junho, acompanhada de documentação desde 2023.

No mesmo dia, Dutra solicitou a rescisão contratual com a Santa Casa, onde trabalha há 30 anos. Após o impedimento de acesso à instituição na manhã de quarta-feira (24), o médico divulgou comunicado público expondo as críticas à gestão hospitalar.

O plano de contingenciamento não executado

Segundo Dutra, um plano de contingenciamento emergencial foi desenhado por sua equipe e aprovado em março de 2026 pela administração e diretoria técnica do hospital. O plano previa a utilização de uma área física reformada no terceiro andar da Santa Casa, conhecida como UCINCO, que permanecia sem uso há mais de um ano.

O médico afirma que o plano contava com todos os recursos necessários: espaço físico disponível, verba de custeio oferecida pela DRS 2 (Direção Regional de Saúde), equipamentos já em uso no pronto-socorro e equipes de enfermagem, fisioterapia e apoio. Dutra ofereceu sua equipe médica para assumir a função, mesmo trabalhando em regime de insegurança.

“Por que então esse plano não foi executado?”, questiona o médico no comunicado, destacando que a falta de execução expôs crianças frágeis a riscos desnecessários.

Risco de contágio em UTI Neonatal

Dutra critica a decisão de transferir crianças do pronto-socorro para a UTI Neonatal 1, argumentando que essa medida, embora aparentemente positiva, expõe prematuros frágeis — muitos com menos de um quilograma — a riscos de contágio. Segundo o médico, o correto teria sido retirar as crianças do pronto-socorro para uma Unidade Respiratória Emergencial, acionando o plano de contingenciamento.

O pediatra exemplifica o risco com uma analogia: “Você levaria seu filho de dois meses para uma festa infantil em que as crianças estão todas gripadas? Criança saudável x crianças doentes, o que vai acontecer?”

Infecções na enfermaria de pediatria

Dutra relata que a administração do hospital, contra sua posição, colocou crianças em isolamento respiratório na enfermaria de pediatria, local não planejado para esse tipo de cuidado. Como resultado, duas crianças se infectaram, desenvolvendo quadro respiratório grave e encontrando-se na UTI pediátrica criticamente doentes.

O médico destaca que a síndrome gripal e doenças respiratórias na infância seguem protocolos específicos de diagnóstico clínico, e que crianças com sintomas de gripe precisam ser protegidas de outras crianças doentes para evitar contágio.

Interferência na autonomia médica

Dutra acusa a administração de interferência total na autonomia do ato profissional médico. Segundo o comunicado, o impedimento de acesso à Santa Casa teve como objetivo impedir sua liderança técnica nas unidades pediátricas e neonatais.

O médico ressalta que foi impedido de cumprir seus contratos vigentes durante o período de 60 dias previsto no destrato, após solicitar a rescisão contratual.

Compromisso com a vida

Em comunicado à população, Dutra reafirma seu compromisso com a defesa das vidas das crianças na região de saúde que compreende 38 municípios, particularmente em Araçatuba, onde reside há 30 anos com sua família.

Confira abaixo o comunicado na íntegra:

“COMUNICADO À POPULAÇÃO DE ARAÇATUBA E REGIÃO

Em resposta ao comunicado da Administração da Santa Casa publicado ontem e, também, ao meu impedimento, Prof Dr Anderson Dutra, de adentrar a Santa Casa para exercer minhas atividades profissionais, declaro que:

1- o meu impedimento na entrada da Santa Casa teve e tem muitos objetivos, porém, o objetivo da Administração comandada pelo Provedor Dr Everton Henrique, foi impedir a minha liderança técnica;

2- o fato de os leitos terem sido remanejados, e que 5 crianças subiram para UTI Neonatal 1, pode ser visto como algo positivo, porém expõe de maneira clara a Gestão Temerária a que a Santa Casa está submetida. Mas, poderíamos perguntar: por quê??? Ora, leitos de UTI Neonatal, onde prematuros frágeis, muitos com menos de 1 kg, recebendo inúmeros cuidados para manter a vida, estão sendo expostos a um risco de contágio, mesmo que as normas do Ministério da Saúde de prevenção de contatos seja estabelecida.

O que deveria ter sido feito então??? Retirar essas crianças do Pronto Socorro para uma Unidade Respiratória Emergencial! Mas como? Atiçando o plano de contingenciamento emergencial desenhado por mim e minha equipe e aprovado em março desse ano pela Aministracão e diretoria técnica do hospital. Tal plano previa,e isso está plenamente documentado, que uma área física reformada, nunca antes utilizada por mais de 1 ano, no terceiro andar do hospital, conhecida como UCINCO, fosse utilizada!

Por que então esse plano não foi executado??? Tem espaço físico? SIM!!! Tem verba de custeio da nova unidade emergencial respiratória oferecida pela DRS 2? SIM!!! Tem equipamentos? SIM!!! Muitos deles já em uso dessas crianças no Pronto-Socorro! Tem equipe de enfermagem, fisioterapeuta e apoios? SIM! Nesses últimos dias observamos várias funcionárias trabalhando no Pronto Socorro em regime de extras! Tem equipe médica? SIM!!!

Eu ofereci a minha equipe para assumirmos mais essa função, mesmo trabalhando em regime de insegurança! Mas, insisto, por que não foi executado o plano de contingência emergencial??? Amigos, diante dessa Gestão Temerária e da interferência total na autonomia do ato profissional médico, no dia 10 deste mês, protocolei a minha solicitação de RESCISãO contratual! E, imediatamente encaminhei ao Ministério Público denúncia de Gestão Temerária com ajuntamento de farta documentação desde de 2023!

O resultado até o momento disso tudo? Vocês todos conhecem!!!! Fui impedido de adentrar a Santa Casa, entidade que entrego meus serviços há 30 anos com o maior respeito e carrinho. Fui impedido de cumprir os meus contratos vigentes, dentro do período de 60 dias previsto no destrato!

Alguns esclarecimentos são importantes para a que possamos entender um pouco melhor os fatos: 1- o diagnóstico de uma doença por um médico deve ser baseado pela análise dos sintomas, pelo exame do paciente, e é o que chamamos de diagnóstico clínico; esse diagnóstico pode ser confirmado por exames complementares como raio X ou tomografia de pulmão, e também, pela identificação de agentes infecciosos em culturas, testes de sangue ou testes rápidos ( o famoso cotonete ).

Vamos utilizar o exemplo da Dengue. Essa doença segue esse roteiro, e, em situações de epidemia, os testes para confirmação não precisam nem ser solicitados! A síndrome gripal é as doenças respiratórias na infância seguem também o mesmo modelo. Uma criança de 2 meses pode ter sintomas de gripe, estar cansada, precisando de oxigênio ou até mesmo precisar de cuidados de uti, ter raio X e tomografia de pulmão muito alteradas e ter os testes de identificação dos agentes negativos!

Isso não significa que o paciente não tem a doença, mas sim, que o agente não foi identificado! Eu sei que medicina pode às vezes parecer difícil, mas, você levaria seu filho de 2 meses para uma festa infantil em que as crianças estão todas gripadas??? Criança saudável x crianças doentes, o que vai acontecer??? É, infelizmente já aconteceu! Dentro da enfermaria de pediatria!

A Administração do hospital, mesmo contra a minha posição, resolveu colocar crianças em isolamento respiratório na enfermaria da pediatria, local não planejado para esse tipo de cuidado! Infelizmente, duas crianças se infectaram desenvolvendo quadro respiratório grave e encontram-se na uti pediátrica do 6 andar criticamente doentes!!!

Portanto, caríssimos moradores de Araçatuba e região, é com profundo pesar que venho expor essa situação publicamente após ontem, dia 24/6 a Administração da Santa Casa, comandado pelo seu Provefor Dr Everton Henrique, ter impedido o meu acesso a Santa Casa. Porém, quero renovar com 38 municípios que constituem a nossa regional de saúde, e, particularmente com a minha querida Araçatuba, que acolheu e acolhe a mim e minha família há 30 anos, o compromisso de VIDA de continuar, dentro das minhas infinitas limitações, a defender as vidas das crianças.

Afinal, estou certo que combati e combato o BOM COMBATE, e que, para Deus nada é impossível! Assinado: Prof Dr Anderson Dutra”

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