A Copa do mundo que não cabe mais em uma só tela

Pablo Juan Cruz
Pablo Juan Cruz
Pablo Juan Cruz é cofundador da IONIC Health, healthtech global nascida no Brasil que está revolucionando a operação remota de exames de imagem de alta complexidade.Com mais de 15 anos de experiência em transformação digital nos setores financeiro, jurídico e de saúde, Pablo liderou equipes multidisciplinares em projetos estruturantes de modernização e reestruturação, com foco na otimização de fluxos diagnósticos e na democratização do acesso a tecnologias críticas.Como cofundador e executivo C-level da IONIC, é responsável pelo desenvolvimento comercial e pelo relacionamento estratégico com clientes. Integra o time de liderança que conduziu a expansão internacional da empresa para a América Latina, Europa e Estados Unidos, estruturando operações em contextos diversos de mercado e cultura.Ao longo de sua trajetória, atuou como mentor e conselheiro de empresas em diferentes setores, apoiando negociações multimilionárias e processos de escala e inovação.Pablo possui especialização em Inovação em Saúde pela Harvard University e formação em Chief Digital Officer (CDO) pela FIA Business School. Também participou do programa Leading The Future da Singularity University e foi reconhecido pela Forbes Brasil como uma das principais lideranças em inovação na saúde.Sua trajetória combina visão estratégica, gestão de projetos complexos e compromisso com resultados que transformam o cuidado em saúde.

Nunca foi tão difícil assistir apenas a um jogo de futebol.

Durante décadas, a Copa do Mundo foi uma experiência relativamente simples. A família se reunia diante da televisão, o narrador conduzia a emoção, o intervalo organizava a conversa e o apito final encerrava a experiência. Havia comentários no dia seguinte, claro. Havia jornal, rádio, mesa de bar. Mas o jogo, enquanto acontecia, ainda tinha um centro.

A Copa de 2026 mostra outra coisa. Hoje, o torcedor assiste ao jogo, acompanha o chat, comenta no WhatsApp, vê o meme no X, recebe o corte no Instagram, procura o lance no YouTube, confere estatísticas no Google e, em alguns casos, acompanha outra tela com odds, escalações ou comentários paralelos. A partida continua tendo 90 minutos. A experiência ao redor dela já não tem esse limite.

A CazéTV talvez seja o exemplo mais claro dessa mudança no Brasil. A FIFA confirmou que o canal digital transmitiria, no país, todos os 104 jogos da Copa do Mundo de 2026. O acordo foi apresentado como parte de uma estratégia para alcançar públicos mais jovens por meio de uma cobertura digital orientada por comunidade. A mesma comunicação da FIFA também registrou que a Globo manteve direitos não exclusivos para transmitir todos os jogos do Brasil, a final e metade das demais partidas do torneio. Ou seja, a disputa brasileira pela Copa deixou de ser apenas uma questão de emissora. Passou a ser uma questão de plataforma, linguagem e circulação.

O YouTube, por sua vez, não é só o lugar onde a transmissão aparece. A plataforma se colocou como parceira preferencial da FIFA para a Copa de 2026, com destaques, criadores, Shorts, bastidores e conteúdo oficial em múltiplos formatos. Para o público brasileiro, o blog oficial do YouTube informou que todos os jogos poderiam ser vistos ao vivo e gratuitamente pela CazéTV. Esse detalhe é central. A tecnologia não está apenas distribuindo o jogo. Ela está redesenhando o modo como o jogo é vivido.

A força da CazéTV vem justamente daí. Ela não trata a transmissão como um produto fechado. O jogo vira matéria-prima para conversa, reação, corte, meme, bastidor e participação. O público não fica apenas sentado diante da tela. Ele comenta, compartilha, corrige, provoca, torce em público e ajuda a espalhar a narrativa. Em uma reportagem do El País sobre o fenômeno, a CazéTV aparece como um canal que ofereceu todos os jogos gratuitamente no YouTube e atraiu 12 milhões de dispositivos no Brasil contra Marrocos. A mesma reportagem mostrou um episódio curioso: depois de uma ação envolvendo o goleiro Vozinha, de Cabo Verde, seus seguidores no Instagram saltaram de 53 mil para mais de 10 milhões em 24 horas. A escala exata pode variar conforme a medição, mas o ponto é claro. A transmissão deixou de terminar na tela principal. Ela empurra a audiência para outras redes.

Os números recentes reforçam essa leitura. O TecMundo informou que Brasil contra Escócia, pela Copa de 2026, levou a CazéTV a mais de 18,6 milhões de espectadores simultâneos e a um novo recorde de live mais assistida da história do YouTube. A Exame já havia registrado, no primeiro jogo do Brasil, que a CazéTV superara 12 milhões de visualizações simultâneas, mesmo com atraso em relação à TV aberta. Como toda medição de audiência digital exige cuidado, esses dados devem ser lidos como sinais de escala, não como uma fotografia perfeita do comportamento nacional. Ainda assim, são sinais difíceis de ignorar.

Essa é a linguagem moderna da economia da atenção. Ela não depende apenas de prender alguém por duas horas diante de uma tela. Depende de criar pontos sucessivos de retorno. O lance vira corte. O corte vira comentário. O comentário vira meme. O meme vira uma nova entrada na transmissão. A audiência, nesse modelo, também funciona como distribuição.

Herbert Simon, economista e psicólogo, já havia formulado a base desse problema em 1971. Em um ambiente rico em informação, dizia ele, a abundância de informação cria escassez de atenção. A frase ficou famosa porque descreve bem o presente, embora tenha sido escrita muito antes das redes sociais. O excesso de conteúdo não resolve o problema do público. Ele transfere o problema para outra pergunta: onde devo colocar minha atenção agora?

Tim Wu, em The Attention Merchants, seguiu uma linha semelhante ao mostrar como diferentes meios, do jornal popular à internet, aprenderam a capturar e revender a atenção humana. A diferença, agora, é que a atenção não é apenas capturada. Ela é convertida em participação. O torcedor não apenas consome a Copa. Ele ajuda a produzir a Copa que outras pessoas verão nos feeds.

A Globo entendeu que esse jogo mudou, mesmo que sua força na televisão continue enorme. A empresa não está simplesmente tentando imitar a CazéTV. Ela tenta adaptar uma tradição de massa a um ambiente em que a audiência se espalha por telas e formatos. A criação do GE TV mostra isso. Segundo o próprio GE, o canal nasceu como uma oferta digital gratuita de esportes, com distribuição pelo Globoplay, YouTube, Samsung TV Plus, Claro e portal ge.globo, além de atuação em Instagram e TikTok. A proposta inclui jogos ao vivo, melhores momentos, programas, resenhas e formatos de mesa. É a televisão aprendendo a falar em lógica de plataforma.

Marshall McLuhan chamaria isso de uma mudança no meio, não apenas no conteúdo. Em Understanding Media, ele escreveu que o meio altera a escala, o ritmo e o padrão das relações humanas. Aplicado à Copa, isso significa que o mesmo gol não é exatamente o mesmo evento quando passa pela TV aberta, pelo YouTube, pelo corte vertical, pelo grupo de WhatsApp e pelo algoritmo do TikTok. A jogada no campo é a mesma. A experiência social dela muda conforme o meio.

Há ganhos evidentes. Mais gente pode assistir. Mais vozes participam. A cobertura fica menos dependente de um único narrador, de uma única grade e de um único padrão de linguagem. Também há perdas. A experiência fica mais fragmentada. O silêncio desaparece. O torcedor ganha acesso, mas perde concentração. Ele vê mais coisas, mas talvez veja menos profundamente.

Esse é o ponto que a Copa ajuda a enxergar. A tecnologia já não atua apenas antes ou depois do jogo. Ela organiza o jogo enquanto ele acontece ao redor de nós. A CazéTV percebeu cedo que transmissão virou conversa. O YouTube ofereceu a infraestrutura para essa conversa ganhar escala. A Globo tenta levar sua autoridade histórica para um ambiente no qual autoridade, sozinha, já não basta.

Talvez a pergunta desta Copa não seja apenas onde você assistiu ao jogo. A pergunta mais reveladora é quantas vezes sua atenção mudou de lugar durante a partida. A resposta diz muito sobre futebol. Diz ainda mais sobre nós.

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS