A próxima eleição também deveria ser sobre chips

Pablo Juan Cruz
Pablo Juan Cruz
Pablo Juan Cruz é cofundador da IONIC Health, healthtech global nascida no Brasil que está revolucionando a operação remota de exames de imagem de alta complexidade.Com mais de 15 anos de experiência em transformação digital nos setores financeiro, jurídico e de saúde, Pablo liderou equipes multidisciplinares em projetos estruturantes de modernização e reestruturação, com foco na otimização de fluxos diagnósticos e na democratização do acesso a tecnologias críticas.Como cofundador e executivo C-level da IONIC, é responsável pelo desenvolvimento comercial e pelo relacionamento estratégico com clientes. Integra o time de liderança que conduziu a expansão internacional da empresa para a América Latina, Europa e Estados Unidos, estruturando operações em contextos diversos de mercado e cultura.Ao longo de sua trajetória, atuou como mentor e conselheiro de empresas em diferentes setores, apoiando negociações multimilionárias e processos de escala e inovação.Pablo possui especialização em Inovação em Saúde pela Harvard University e formação em Chief Digital Officer (CDO) pela FIA Business School. Também participou do programa Leading The Future da Singularity University e foi reconhecido pela Forbes Brasil como uma das principais lideranças em inovação na saúde.Sua trajetória combina visão estratégica, gestão de projetos complexos e compromisso com resultados que transformam o cuidado em saúde.

Enquanto o Brasil se prepara para mais uma eleição discutindo impostos, segurança, inflação e emprego, Elon Musk está gastando bilhões para tentar controlar algo muito menor que uma moeda: chips.

A contradição é apenas aparente.

Tesla, SpaceX e xAI estão avançando com o projeto da chamada Terafab, uma estrutura de produção de semicondutores nos Estados Unidos. Musk já entendeu algo que Washington, Pequim e Bruxelas também entenderam: quem não tiver acesso a capacidade computacional terá cada vez menos autonomia econômica.

Os chips estão nos carros, celulares, equipamentos médicos, satélites, sistemas de defesa e redes de telecomunicações. Mas sua importância aumentou dramaticamente com a inteligência artificial.

Treinar e executar modelos como ChatGPT, Gemini ou Grok exige uma quantidade enorme de processamento. Quanto mais avançada a inteligência artificial, maior é a necessidade de chips especializados, energia e data centers.

É por isso que empresas como Nvidia passaram a ocupar uma posição tão estratégica. E é por isso também que Taiwan, onde está a TSMC, tornou-se uma peça crítica da economia mundial.

Musk parece querer diminuir essa dependência.

A Tesla já desenvolve chips próprios e contratou empresas como Samsung e TSMC para fabricá-los. Agora, a ambição vai além: construir capacidade industrial própria para alimentar carros autônomos, robôs Optimus, sistemas da SpaceX e a infraestrutura de inteligência artificial da xAI.

Não é apenas uma discussão tecnológica.

É uma discussão sobre soberania.

E onde entra o Brasil?

Aqui começa a parte desconfortável.

O Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes, uma das maiores economias do planeta, universidades relevantes, uma enorme matriz energética e posição geopolítica privilegiada. Também possui minerais importantes para diversas cadeias tecnológicas.

Mas continuamos ocupando uma posição pequena na indústria global de semicondutores.

E talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Não precisamos imaginar que o Brasil construirá amanhã uma concorrente da TSMC capaz de fabricar os chips mais avançados do planeta. Uma fábrica de semicondutores de ponta custa dezenas de bilhões de dólares e depende de equipamentos, fornecedores, propriedade intelectual e conhecimento acumulado durante décadas.

A pergunta mais inteligente é: em quais partes dessa nova cadeia o Brasil pode ser realmente competitivo?

Produção de chips menos avançados para automóveis, indústria e equipamentos médicos? Encapsulamento e testes? Data centers? Energia para processamento de IA? Pesquisa? Minerais estratégicos? Formação de engenheiros? Desenvolvimento de chips especializados?

Provavelmente não existe uma única resposta. Existe uma política industrial a ser construída.

E é justamente por isso que esse assunto deveria aparecer na eleição brasileira de 2026.

O debate político precisa chegar ao século XXI

Durante a campanha eleitoral ouviremos novamente discussões importantes sobre saúde, educação, segurança, programas sociais e equilíbrio fiscal.

Precisamos discuti-las.

Mas deveríamos exigir dos candidatos uma resposta para outra pergunta:

qual será o papel do Brasil na economia da inteligência artificial?

Porque não basta dizer que o país precisa “investir em tecnologia”. Essa frase cabe em praticamente qualquer programa de governo das últimas três décadas.

Precisamos falar de coisas concretas.

Qual será a política brasileira para semicondutores? Quanto queremos investir? Quais etapas da cadeia queremos atrair? Como formar milhares de profissionais? Como transformar nossa disponibilidade energética em vantagem para data centers? Como proteger dados estratégicos? Como aproximar universidades e empresas? E, principalmente, quais metas queremos atingir em dez ou vinte anos?

Isso deveria atravessar governos de direita, centro ou esquerda.

A China compreendeu a importância dos semicondutores. Os Estados Unidos compreenderam. A União Europeia compreendeu. Empresas privadas estão investindo dezenas de bilhões porque compreenderam.

Musk não está construindo fábricas de chips porque semicondutores estão na moda.

Ele está tentando garantir capacidade para aquilo que acredita que suas empresas precisarão produzir na próxima década.

O Brasil precisa fazer exercício semelhante.

A eleição de 2026 não decidirá apenas quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos. Também ajudará a definir que tipo de economia estaremos construindo para os próximos vinte.

Podemos continuar sendo grandes consumidores de inteligência artificial desenvolvida, processada e controlada no exterior.

Ou podemos escolher alguns pontos dessa cadeia global em que temos condições reais de competir.

Não precisamos fabricar tudo.

Mas também não podemos depender de todos para fabricar qualquer coisa.

No século XX, países disputavam petróleo.

No século XXI, energia continuará fundamental. Mas uma parte crescente dela será transformada em poder computacional.

E, no centro dessa transformação, existe uma pequena peça de silício.

Talvez esteja na hora de perguntarmos aos candidatos o que pretendem fazer com ela.

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