Feridas na perna que demoram a cicatrizar, especialmente na região próxima ao tornozelo, muitas vezes não são apenas um problema de pele. Em grande parte dos casos, a origem está na circulação: é a chamada úlcera venosa, uma complicação avançada da insuficiência venosa crônica.
A cirurgiã vascular Andréa Klepacz afirma que a lesão pode persistir por meses ou até anos, com impacto importante na qualidade de vida. “A úlcera venosa é uma manifestação avançada de um problema circulatório e, por isso, precisa ser tratada como tal”, destaca a médica.
Na prática, por muito tempo o cuidado se concentrou principalmente na ferida, com curativos, pomadas e atenção local. Esses recursos seguem sendo importantes, mas podem não ser suficientes quando a causa — o mau funcionamento das veias — permanece sem tratamento.
Por que a ferida não fecha
A insuficiência venosa acontece quando as válvulas dentro das veias não funcionam como deveriam, dificultando o retorno do sangue ao coração. Com isso, o sangue tende a se acumular nas pernas, aumentando a pressão dentro dos vasos e favorecendo o extravasamento de líquido para os tecidos.
Esse cenário cria um ambiente desfavorável para a pele: há piora da oxigenação, inflamação persistente e maior dificuldade de cicatrização. Por isso, é comum que a úlcera permaneça aberta quando o tratamento se limita ao local da lesão.
“Tratar apenas a ferida, sem tratar a veia doente, é muitas vezes tratar a consequência e não a causa”, alerta Andréa Klepacz.
O que mudou no tratamento
Nos últimos anos, evidências clínicas reforçaram uma mudança na abordagem: combinar o tratamento conservador — como curativos adequados e terapia compressiva — com a correção da insuficiência venosa pode acelerar o fechamento da úlcera.
Entre as opções para tratar as veias insuficientes, procedimentos de ablação venosa vêm ganhando espaço, com técnicas minimamente invasivas, como laser ou radiofrequência. Ao corrigir o refluxo venoso, melhora-se o ambiente circulatório na perna, o que favorece a cicatrização.
Outro ponto decisivo é a prevenção de recidivas, um dos principais desafios desse tipo de ferida. Ao tratar a causa, o risco de a úlcera voltar pode cair de forma significativa.

Impacto vai além da pele
A úlcera venosa costuma interferir na rotina e na mobilidade, pode causar dor crônica e levar ao isolamento social. Também há preocupação constante com o risco de infecções, especialmente quando a ferida permanece aberta por longos períodos.
Muitos pacientes convivem durante anos com a necessidade de curativos frequentes, sem resultados duradouros, justamente porque o problema circulatório de base não é investigado e tratado de maneira completa.
Para a especialista, a mudança de perspectiva é essencial: “Uma abordagem mais completa, com avaliação vascular, tratamento da insuficiência venosa e cuidados locais, pode reduzir o tempo de cicatrização e devolver qualidade de vida”, afirma Andréa Klepacz.
A úlcera venosa não é apenas uma ferida de difícil cicatrização, mas a manifestação de uma doença da circulação. Por isso, tratar a veia comprometida é fundamental para favorecer o fechamento da lesão e reduzir o risco de recorrência.

