Violência invisível: controle disfarçado de cuidado

Jhon Fuentes
Jhon Fuentes
Neuropsicólogo, psicólogo escolar, psicólogo clínico especializado em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), atuando nos tratamentos de Depressão, Ansiedade, Síndrome de Burnout, doenças psicossomáticas e situações com sequelas graves de violência doméstica.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), do IBGE, última grande pesquisa com dados aprofundados sobre violência, mostram que 29,1 milhões de brasileiros — 18,3% da população — sofreram algum tipo de violência psicológica, física ou sexual. Mais de 85% dos casos ocorreram dentro de casa ou tiveram como autores parceiros, ex-companheiros, parentes ou amigos próximos. O levantamento também aponta que mulheres, jovens e pessoas negras estão entre as principais vítimas.

Mas será que toda discussão em um relacionamento é sinal de violência?

Relacionamentos saudáveis unem pessoas com histórias de vida, valores, personalidades e necessidades diferentes; por isso, divergências e frustrações podem ocorrer naturalmente. Esses momentos são chamados de conflitos.

Na perspectiva da Psicologia, o conflito é uma divergência natural entre interesses, opiniões ou necessidades. Ele não significa, por si só, que o relacionamento seja ruim. Quando conduzido com respeito, pode favorecer o amadurecimento emocional, fortalecer o vínculo afetivo, ampliar a comunicação e desenvolver habilidades como empatia, negociação, autorregulação emocional e resolução de problemas.

Em relacionamentos maduros e saudáveis, os conflitos são enfrentados por meio do diálogo, da escuta ativa, da comunicação assertiva e do respeito mútuo. Mesmo em momentos de raiva, frustração ou tristeza, é possível buscar soluções sem recorrer à intimidação, à humilhação ou ao controle.

Já a violência rompe o respeito, a dignidade e os direitos humanos. Envolve força, intimidação, manipulação ou abuso para controlar a outra pessoa, causando sofrimento físico, emocional, psicológico, sexual, moral ou patrimonial.

Esse tema merece atenção porque a violência em um relacionamento nem sempre começa com agressões físicas. Muitas vezes, ela aparece de forma sutil, por meio de comportamentos que passam a ser normalizados no dia a dia.


Conheça alguns comportamentos que podem indicar violência

– Controle sobre as roupas que você veste

– Exigir acesso às suas senhas e ao celular

– Monitorar sua localização constantemente

– Decidir com quem você pode conversar ou sair

– Fazer “brincadeiras” que humilham você na frente de outras pessoas

– Desvalorizar suas conquistas ou sua inteligência

– Dizer que você é “louca”, “dramática” ou “sensível demais” para fazer você duvidar da própria percepção (gaslighting)

– Fazer chantagem emocional, como: “Se você me ama, vai fazer isso”

– Impedir que você trabalhe ou estude

– Controlar seu dinheiro ou exigir prestação de contas de cada gasto

– Isolar você da família e dos amigos

– Explodir de ciúmes e chamar isso de “prova de amor”

– Ameaçar terminar o relacionamento sempre que você impõe um limite

– Quebrar objetos, socar paredes ou intimidar fisicamente, mesmo sem bater em você

– Forçar relações sexuais ou insistir quando você já disse “não”

– Culpar você por todas as discussões e nunca assumir responsabilidade

– Pedir desculpas repetidamente, prometer mudar e voltar ao mesmo comportamento (o chamado ciclo da violência).


Algumas perguntas podem te ajudar a perceber se o relacionamento é violento:

– Eu sinto medo da reação da pessoa quando discordo dela?

– Deixo de fazer coisas para evitar conflitos?

– Preciso “pisar em ovos” o tempo todo?

– Minha autoestima diminuiu desde o início do relacionamento?

– Afastei-me de amigos ou familiares?

– Sinto que nunca sou boa o suficiente?

– Meu parceiro controla meu dinheiro, meu celular ou minhas redes sociais?

– Minhas opiniões são constantemente desqualificadas?

– Já fui ameaçada, intimidada ou humilhada?

– Depois das brigas, existe uma fase de carinho intenso, seguida por novas agressões?

Quanto mais respostas “sim”, maiores os indícios de que o relacionamento pode ter sinais de abuso.


Aprenda a identificar sinais e buscar apoio

1. Observe os sinais

Não minimize atitudes abusivas. Amor não deve vir acompanhado de medo, controle ou humilhação.

2. Busque pessoas de confiança

Converse com familiares, amigos, líderes religiosos ou profissionais de apoio. O isolamento pode dificultar a saída de uma situação de violência.

3. Planeje com segurança

Se houver risco, evite agir por impulso. Separe documentos, dinheiro, contatos importantes e identifique um lugar seguro para ficar, se necessário.

4. Procure ajuda especializada

Você não precisa enfrentar isso sozinha. Delegacias especializadas, assistência social, psicólogos, advogados e organizações de apoio podem oferecer acolhimento e orientação.

Sinais de um relacionamento saudável

Um relacionamento saudável é marcado por:

* Respeito mútuo.

* Liberdade individual.

* Comunicação aberta.

* Confiança.

* Apoio ao crescimento um do outro.

* Segurança emocional.

* Resolução de conflitos sem ameaças ou humilhações.

Se você ou alguém próximo estiver em perigo imediato, procure ajuda de emergência e serviços especializados de proteção à mulher ou à vítima de violência em sua região o quanto antes.

Reflexão: “O verdadeiro cuidado respeita, acolhe e fortalece. Ele não limita a liberdade, não invade a privacidade e não controla escolhas. Relações saudáveis são construídas com confiança, diálogo e respeito. Amar é caminhar ao lado, nunca prende.”

Até semana que vem.

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