Cardiologia endurece metas de colesterol e defende tratar antes do infarto e do AVC

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Esperar a doença aparecer para só então agir contra o colesterol alto está deixando de ser a regra na cardiologia. A estratégia que ganha espaço é reduzir o LDL, conhecido como “colesterol ruim”, o quanto antes em pessoas com maior risco, para diminuir a chance de formação e crescimento de placas nas artérias — processo ligado a infarto, AVC e outras complicações.

O cardiologista Carlos Alberto Pastore explica que a mudança reflete um entendimento mais direto sobre o papel do LDL na saúde cardiovascular. “O LDL não é só um número no exame: ele participa do processo que leva ao entupimento das artérias”, afirma.

Na prática, o foco passa a ser a prevenção ao longo da vida: quanto mais cedo e por mais tempo o LDL fica baixo, menor tende a ser a exposição das artérias a esse tipo de colesterol associado à aterosclerose.

Metas de LDL mais baixas: o que muda para quem tem alto risco

As metas ficaram mais rigorosas, principalmente para quem já tem risco elevado de eventos cardiovasculares. Uma diretriz da ACC/AHA divulgada em 2026 passou a recomendar LDL abaixo de 70 mg/dL para pessoas de alto risco e abaixo de 55 mg/dL para pacientes com doença aterosclerótica já estabelecida e risco muito alto.

Na Europa, a orientação segue linha semelhante: a Sociedade Europeia de Cardiologia já vinha defendendo alvo inferior a 55 mg/dL para prevenção secundária (quando a pessoa já teve evento cardiovascular ou tem doença confirmada), junto com uma redução de pelo menos 50% do LDL em relação ao valor inicial.

Para Pastore, a lógica por trás dessas metas é objetiva. “A ideia de ‘quanto menor, melhor’ para o LDL ganhou força porque os benefícios se acumulam com o tempo, desde que a redução seja feita com tratamentos seguros e com evidência”, destaca.

Intervir antes dos sintomas: quem entra no radar mais cedo

Outra mudança é o momento de iniciar ou intensificar o tratamento. Em vez de esperar um infarto, um AVC ou uma obstrução arterial importante, a tendência é identificar precocemente quem já carrega risco elevado e pode se beneficiar de uma abordagem mais firme.

Entre os grupos que costumam exigir atenção antecipada estão pessoas com diabetes, hipercolesterolemia familiar, LDL persistentemente muito alto e quem reúne múltiplos fatores de risco. Também pesa a história familiar de doença cardiovascular precoce, que pode indicar uma predisposição maior.

O especialista alerta que a aterosclerose pode evoluir silenciosamente por anos. “A placa começa a se formar muito antes de dar qualquer sintoma. Quando o evento acontece, o processo já vinha se desenvolvendo há muito tempo”, afirma.

Foto: Freepik.

Novos tratamentos ampliam o controle do colesterol

As estatinas seguem como base do tratamento por sua eficácia e histórico de uso, mas hoje não são a única ferramenta. Para pacientes que não atingem as metas apenas com estatinas — ou que precisam de uma queda mais intensa do LDL —, entram em cena terapias adicionais.

Entre elas, estão os inibidores de PCSK9, capazes de reduzir o LDL de forma expressiva em casos selecionados e já incorporados à prática clínica.

Há ainda opções mais recentes que atuam diretamente em mecanismos ligados à produção do colesterol. Um exemplo é o inclisiran, que pode diminuir significativamente o LDL com aplicações pouco frequentes ao longo do ano, o que tende a facilitar a adesão.

Para Pastore, essas alternativas reforçam uma virada de mentalidade. “A cardiologia passou a encarar o LDL como causa a ser controlada cedo, não como algo para reagir depois que a doença aparece”, diz. Em muitos casos, completa, antecipar a intervenção pode ser decisivo para evitar que o primeiro sinal do problema seja justamente um evento grave.

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