A dor na coluna é uma das queixas mais comuns nos consultórios e, na maioria das vezes, não leva à sala de cirurgia. Mudanças de hábitos, melhora da ergonomia, fisioterapia, exercícios e uso correto de medicações costumam ser suficientes para controlar os sintomas e recuperar a função.
O ortopedista Thiego Pedro Freitas Araújo afirma que a cirurgia entra como alternativa quando o caminho conservador não funciona ou quando há sinais de alerta. “A grande maioria das doenças da coluna não exige cirurgia, mas nem todos os pacientes evoluem bem com o tratamento clínico”, explica.
Em geral, o primeiro motivo para considerar uma operação é a falha do tratamento conservador. Se, após pelo menos seis semanas de cuidado bem conduzido, não houver melhora satisfatória, a possibilidade de cirurgia pode ser discutida.
Mesmo nesse cenário, a decisão não é automática. O especialista pondera que é preciso avaliar a chance de melhora a longo prazo sem operar, o quanto o procedimento é invasivo e os riscos no curto e no longo prazo. O paciente também pode optar por estender o tratamento conservador e ajustar a estratégia antes de decidir.
Quando a cirurgia costuma ser indicada
Há situações em que a cirurgia tende a ser recomendada com mais firmeza, principalmente quando há risco de sequela ou impacto importante na vida diária. Entre os principais cenários estão:
- · Perda de força significativa em um braço ou perna; nesses casos, Araújo alerta que o tempo é decisivo: “O ideal é operar em até 24 a 48 horas do início dos sintomas para evitar sequelas permanentes”.
- · Recorrência dos sintomas mesmo após um tratamento conservador adequado.
- · Dor intratável, que não responde às medidas clínicas disponíveis.
- · Queda severa na qualidade de vida ou na capacidade de trabalhar, inclusive quando os remédios causam sedação intensa e impedem o paciente de manter suas atividades.
Esses sinais não substituem a avaliação médica, mas funcionam como alertas para procurar um especialista e discutir o risco-benefício das opções.
Bloqueios: um caminho entre remédios e cirurgia
Quando o tratamento conservador não resolve e o paciente ainda não quer operar, há alternativas intermediárias, como os bloqueios para controle da dor. A ideia é interromper o sinal doloroso antes que ele chegue ao cérebro.
A modalidade mais comum, segundo Araújo, usa anestésico e corticoide aplicados diretamente na região de origem da dor. Outra técnica é a rizotomia por radiofrequência, que busca um efeito mais duradouro ao atuar no nervo responsável pelo sinal doloroso.
Também vêm ganhando espaço abordagens de medicina regenerativa, como uso de fatores de crescimento e células-tronco. O médico ressalta, porém, que esse campo exige cautela. “É fundamental diferenciar procedimentos com evidência científica sólida de promessas sem comprovação”, destaca.

Técnicas mais modernas e recuperação mais rápida
Os procedimentos cirúrgicos para coluna também mudaram nos últimos anos, com avanço de técnicas menos invasivas e, em muitos casos, recuperação mais curta.
Para descompressão neural (quando é preciso “liberar” estruturas nervosas comprimidas), uma das abordagens mais avançadas é a cirurgia endoscópica de coluna. Ela pode ser feita por técnica uniportal (com um acesso) ou biportal (com dois acessos). As duas estratégias têm vantagens e limitações conforme o problema, e a escolha costuma depender do caso e da experiência do cirurgião.
Já quando há necessidade de tratar o disco intervertebral, a artroplastia (substituição do disco) tende a ser mais indicada em pacientes mais jovens, por preservar o movimento do segmento operado. Em situações como artrose, deformidades, fraturas ou em pessoas mais velhas, a artrodese (fusão de vértebras) costuma ser a opção mais adequada — e pode, em determinados casos, ser feita por técnicas minimamente invasivas.
No fim, a recomendação é individual. A decisão entre seguir no tratamento clínico, partir para procedimentos intervencionistas ou operar depende do quadro, dos exames e do que o paciente espera recuperar na rotina. “Cada caso de coluna é único e nada substitui uma avaliação individualizada”, afirma Araújo.


