Tratamentos contra o câncer podem salvar vidas, mas também podem comprometer a fertilidade de forma temporária ou permanente. Em pacientes em idade reprodutiva, a preservação de óvulos, sêmen ou embriões antes do início da terapia — e, em alguns casos, durante o tratamento — tem se tornado uma estratégia para manter aberta a possibilidade de ter filhos no futuro.
O ginecologista e especialista em reprodução assistida Dani Ejzenberg afirma que a preocupação costuma surgir junto com o diagnóstico, quando o tempo para decidir é curto. “Sempre que existe risco de infertilidade, é importante conversar rapidamente sobre as opções de preservação antes de começar o tratamento”, destaca.
Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam que terapias como quimioterapia, radioterapia e algumas cirurgias podem afetar diretamente os órgãos reprodutivos e a produção de gametas (óvulos e espermatozoides). Em muitos casos, as alterações podem ser definitivas, o que reforça a necessidade de planejamento o quanto antes.
Por que o tratamento pode afetar a fertilidade
A quimioterapia pode danificar óvulos e células envolvidas na produção de espermatozoides, reduzindo quantidade e qualidade. Já a radioterapia, sobretudo quando direcionada à região abdominal e pélvica, também pode comprometer a função reprodutiva.
Nas mulheres, isso pode levar à falência ovariana precoce — situação em que os ovários deixam de funcionar antes do esperado, podendo causar menopausa antecipada. Nos homens, o efeito pode ser a redução importante ou até a interrupção da produção de espermatozoides.
O desafio, segundo o especialista, é que muitas vezes o intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento é curto. “Mesmo com pouco tempo, vale organizar essa discussão com a equipe que conduz o tratamento do tumor e com um especialista em medicina reprodutiva”, explica Dani Ejzenberg.
Uma das principais entidades internacionais da área, a American Society for Reproductive Medicine, recomenda que pacientes com risco de infertilidade sejam informados sobre as alternativas disponíveis antes de iniciar o tratamento oncológico.

Quais são as opções: óvulos, embriões e sêmen
Entre mulheres, uma das estratégias mais usadas é o congelamento de óvulos. O processo envolve estimulação ovariana e coleta dos óvulos sob sedação, seguida do armazenamento para uso futuro. Em geral, o procedimento pode ser feito em cerca de 10 a 14 dias.
Outra possibilidade é o congelamento de embriões, quando os óvulos são fecundados antes de serem armazenados. Essa alternativa costuma ter taxas de sucesso um pouco mais altas do que o congelamento de óvulos, mas depende da concordância do parceiro ou do uso de amostra de banco de sêmen.
Para homens, o congelamento de sêmen tende a ser mais simples e rápido, podendo ser realizado antes do tratamento com relativa facilidade.
A decisão sobre qual técnica utilizar varia de acordo com fatores como idade, tipo de câncer, urgência para iniciar a terapia, estado civil e desejo reprodutivo. Não existe uma solução única: cada caso precisa de avaliação individualizada.
O que esperar: preservação não é garantia, mas pode trazer esperança
Especialistas reforçam que preservar fertilidade não significa garantir uma gravidez no futuro. As chances dependem de aspectos como idade no momento da coleta e qualidade dos gametas preservados.
Ainda assim, a possibilidade pode ter impacto emocional relevante durante o tratamento. “Para muitos pacientes, saber que existe uma chance de construir uma família depois representa esperança em um período muito difícil”, afirma Dani Ejzenberg.
A chamada oncofertilidade, que integra oncologia e reprodução humana desde o diagnóstico, busca justamente oferecer não apenas o melhor tratamento contra a doença, mas também a discussão sobre perspectivas futuras. Nem todos os pacientes poderão ou desejarão seguir esse caminho — mas o acesso à informação e ao tempo necessário para decidir é parte essencial do cuidado.

