A Doença Renal Crônica (DRC) vem sendo encarada pela medicina de forma cada vez mais ampla: não como um problema restrito aos rins, mas como uma condição capaz de afetar o organismo como um todo e aumentar o risco de complicações graves, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca.
Essa mudança de entendimento ganhou força após a constatação de que muitos pacientes com doença renal acabam morrendo mais por eventos cardiovasculares do que pela falência dos rins em si. Para a nefrologista Carlucci Ventura, esse dado ajudou a consolidar uma nova abordagem. “Hoje, a doença renal é vista como parte de uma interação complexa entre coração, metabolismo e sistema vascular”, afirma.
Na prática, a perda progressiva da função renal pode desencadear uma série de alterações no corpo. Entre elas estão inflamação persistente, acúmulo de substâncias que o rim não consegue eliminar, desequilíbrios metabólicos e maior sobrecarga do sistema circulatório. Esse conjunto cria um cenário propício para danos nos vasos sanguíneos e no coração.
Rim e coração: uma relação que muda o tratamento
Com essa visão sistêmica, tratar a doença renal passou a significar também reduzir riscos cardiovasculares. Segundo Ventura, a lógica de “órgãos isolados” perde espaço quando se entende que a proteção dos rins e do coração costuma caminhar junta. “Cuidar do rim também é cuidar do coração e do metabolismo”, destaca a médica.
Em pessoas com diabetes, essa conexão tende a ser ainda mais evidente. O comprometimento renal e o aumento do risco cardiovascular frequentemente evoluem em paralelo, o que exige monitoramento e controle contínuos de fatores como pressão arterial, glicemia e alterações metabólicas.
Integração entre especialidades e foco no diagnóstico precoce
O avanço do conhecimento sobre a DRC também mudou a forma de organizar o cuidado: em vez de um acompanhamento fragmentado, cresce a necessidade de integração entre especialidades como nefrologia, cardiologia e endocrinologia, com atuação conjunta sobre os principais fatores ligados à progressão da doença e às complicações cardiovasculares.
Nesse cenário, o papel do clínico geral ganha importância, já que costuma ser o primeiro profissional a identificar sinais iniciais do problema e fatores de risco. A estratégia atual valoriza mais o diagnóstico precoce e uma atuação preventiva, com olhar global para a saúde do paciente.

Novos medicamentos reforçam a mudança de paradigma
Nos últimos anos, uma nova fase do tratamento passou a se consolidar com medicamentos que demonstram benefícios além do controle da pressão arterial ou da glicemia. Estudos recentes indicam
que algumas terapias conseguem, ao mesmo tempo, ajudar a preservar a função renal e reduzir a chance de eventos cardiovasculares.
Os resultados influenciaram diretrizes internacionais, que passaram a recomendar essas opções de forma mais ampla para pacientes com diabetes, doença renal e alto risco cardiovascular.
Para Ventura, mais do que uma atualização terapêutica, essa evolução reflete uma mudança de mentalidade. “A doença renal crônica deve ser entendida como uma condição sistêmica, ligada à saúde cardiovascular e metabólica”, explica.
Com a adoção desse cuidado integrado, a expectativa é reduzir complicações, melhorar a qualidade de vida e alterar o prognóstico de milhões de pessoas que vivem com doença renal no mundo.

