Os números melhoraram, mas também revelam um desafio que acompanha boa parte da educação pública brasileira. A rede estadual de São Paulo ficou acima da média nacional nas etapas avaliadas pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb. Ao mesmo tempo, os resultados mostram que o desempenho diminui conforme os alunos avançam pela trajetória escolar.
Nos anos iniciais do ensino fundamental, São Paulo alcançou nota 6,6, contra 6,3 da média brasileira. Nos anos finais, a nota ficou em 5,3 e, no ensino médio, em 4,7.
Em entrevista ao Jornal Novabrasil SP, o secretário estadual da Educação, Renato Feder, destacou que houve avanço nas três etapas e que os anos iniciais e o ensino médio atingiram resultados históricos. Mas reconheceu que parte dos estudantes perde rendimento com o passar dos anos.
“Uma parte desses alunos vai desengajando, vai ficando para trás e isso é um grande problema que a gente tem na educação pública”, avaliou.
Alfabetização como ponto de partida
Para Feder, uma das formas de reduzir essa perda de desempenho é atacar o problema ainda no começo da vida escolar. O governo estadual tem concentrado esforços na alfabetização e também no apoio às redes municipais, responsáveis por boa parte dos alunos dos primeiros anos do ensino fundamental.
O secretário explicou que a estratégia inclui formação de professores, distribuição de livros, avaliações e uso de plataformas tecnológicas. A meta, segundo ele, é chegar ao fim do ano com 90% das crianças alfabetizadas na idade adequada.
“Se você me perguntar qual é a coisa mais importante para a secretaria fazer em educação, é educar bem desde o começo, alfabetizar na idade certa. Se o aluno não é alfabetizado na idade certa, ele deveria estar alfabetizado com sete anos, mas vai ser alfabetizado com nove, ele vai ficando para trás.”
A lógica defendida pela Secretaria é evitar que uma dificuldade inicial se transforme em uma sequência de defasagens. Crianças que demoram mais para aprender a ler, escrever ou dominar operações básicas de matemática tendem a chegar às etapas seguintes com mais dificuldade para acompanhar conteúdos complexos.
Como recuperar quem já ficou para trás
O problema, porém, não está apenas entre os alunos que agora iniciam a vida escolar. A rede também precisa lidar com adolescentes que já chegaram aos anos finais e ao ensino médio carregando lacunas de aprendizagem.
Para esses estudantes, Feder destacou a chamada recomposição da aprendizagem. Uma das principais medidas foi ampliar a presença de professores tutores em escolas com maior número de alunos em defasagem.
“A gente coloca mais professor na escola para cuidar desses alunos que estão para trás. Uma escola, por exemplo, que tem 20% dos alunos com muita defasagem, a gente põe um professor a mais para olhar esse aluno e dar uma aula quase que particular para ele.”
Segundo o secretário, a experiência começou em cerca de 300 escolas, foi ampliada gradualmente e hoje chega a quase 3 mil unidades. A proposta é oferecer acompanhamento mais individualizado para que esses estudantes consigam se aproximar do ritmo dos colegas.
Ensino médio ainda concentra desafios
É no ensino médio que a perda de desempenho aparece com mais força. Além das notas inferiores às registradas no início da educação básica, existe outro desafio: manter o adolescente dentro da escola e interessado no que aprende.
Feder lembrou que, em 2022, a frequência média no ensino médio era de 73%. Segundo ele, esse índice passou para cerca de 90%, o que representaria aproximadamente 300 mil alunos a mais frequentando as escolas todos os dias.
Na avaliação do secretário, duas políticas ajudaram a tornar essa etapa mais atraente: a educação profissional e o Provão Paulista.
Formação técnica aproxima escola e mercado de trabalho
Na educação profissional, os estudantes cursam disciplinas tradicionais e, ao mesmo tempo, podem receber formação técnica em áreas como administração, enfermagem, desenvolvimento de sistemas, marketing e finanças.
Para Feder, essa aproximação com o mercado de trabalho ajuda o jovem a enxergar uma utilidade mais imediata no ensino médio.
“O estudante sai da escola com dois diplomas: o diploma do ensino médio e o de técnico. Ele já pode ir para o mercado de trabalho. Isso tem causado uma grande mudança no ensino médio, com mais aprendizado e os alunos indo mais para a escola.”
Provão Paulista amplia caminho para universidades
O outro eixo apontado pelo secretário é o Provão Paulista, que abre vagas para estudantes da rede pública em instituições como USP, Unesp, Unicamp e Fatecs.
Feder disse que mais de 50 mil alunos já chegaram ao ensino superior por meio do programa. Na visão dele, a perspectiva de acessar uma universidade pública diretamente pela escola estadual também ajuda a recuperar o vínculo do adolescente com os estudos.
“O aluno fala: ‘Caramba, eu estou aqui estudando e essa escola vai me colocar direto na USP, direto na Unesp’. E aí ele estuda mais, vai mais para a escola.”
Os resultados do Ideb mostram que São Paulo avançou. Mas também indicam que melhorar a média não encerra o desafio. O ponto central agora é fazer com que o aluno que começa bem consiga atravessar os anos finais e chegar ao fim do ensino médio sem perder aprendizagem, nem o interesse pela escola.
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