Quando uma mulher abre um negócio, é muito comum dizermos que ela se tornou empreendedora. E quando esse negócio ganha estrutura, contrata pessoas, movimenta recursos e cresce, em que momento começamos a chamá-la de empresária? Parece ser apenas uma escolha de palavras, mas há uma discussão interessante por trás dela que me parece ser o próximo passo do empreendedorismo no Brasil.
No dia 17 de agosto o Brasil celebra o Dia Nacional da Mulher Empresária, data oficial criada em 2023 para reconhecer as mulheres que exercem atividade econômica organizada na produção ou circulação de bens e serviços. O uso da palavra “empresária” chama atenção justamente porque, nos últimos anos, outra palavra ganhou enorme espaço quando falamos sobre mulheres e negócios: empreendedora. Os termos convivem e muitas vezes se referem à mesma mulher, embora não signifiquem exatamente a mesma coisa.
Empreender está relacionado à capacidade de identificar oportunidades, criar soluções, mobilizar recursos e transformar ideias em ação. É possível ter uma postura empreendedora abrindo um negócio, dentro de uma empresa, em um projeto ou até na própria carreira. Enquanto ser empresária está relacionado ao exercício de uma atividade econômica organizada. Na prática, significa estar à frente de uma empresa e lidar com decisões que envolvem gestão, estratégia, recursos, mercado, pessoas, riscos e continuidade.
Uma empresária pode então ser profundamente empreendedora e uma empreendedora não necessariamente precisa ser empresária? Exatamente! E a diferença fica ainda mais interessante quando olhamos para o momento vivido pelas mulheres no nosso país, o Brasil nunca teve tantas mulheres à frente de negócios. Em 2025, o empreendedorismo feminino alcançou o maior patamar da série histórica, com crescimento de quase 30% em uma década, segundo levantamento divulgado pelo Sebrae. É um avanço importante e, ao mesmo tempo entendemos também que colocar um negócio em movimento e conseguir estruturá-lo para crescer continuam sendo desafios diferentes.
Durante muito tempo, uma parte importante da conversa sobre empreendedorismo feminino esteve concentrada em incentivar mulheres a começar e teve um papel fundamental na ampliação da autonomia econômica feminina. Surgiram programas de capacitação, mentorias, redes de apoio, iniciativas de conexão e políticas voltadas a ajudar mulheres a transformar conhecimento e habilidade em fonte de renda. Esse movimento continua necessário, mas agora chegou o momento de ampliar a conversa. Além de quantas mulheres estão empreendendo, quantas estão conseguindo estruturar seus negócios? Quantas acessam crédito para crescer? Quantas contratam? Quantas entram em novos mercados, constroem patrimônio, desenvolvem outras lideranças e criam empresas capazes de funcionar para além da presença diária de quem as fundou?
Isso não significa dizer que todo negócio precisa crescer, uma profissional autônoma pode construir uma carreira excelente sem desejar ter funcionários e escolher permanecer sendo assim. A questão aparece quando existe vontade de avançar e as condições para isso não acompanham ou então quando as próprias mulheres não reconhecem o lugar que ocupam.
Dizer “sou empreendedora” se tornou uma apresentação bastante natural, já o “sou empresária” parece carregar outro peso. Ainda associamos a palavra empresária a grandes estruturas, altos faturamentos ou empresas conhecidas? Existe algum tamanho a partir do qual uma mulher sente que conquistou o direito de se apresentar dessa forma?
Uma mulher que administra uma empresa, atende clientes, negocia com fornecedores, assume riscos, toma decisões financeiras e responde pelo futuro daquele negócio já exerce um papel empresarial, ainda que sua estrutura seja pequena. Talvez essa seja uma discussão importante para o próximo estágio do empreendedorismo feminino brasileiro. Não precisamos trocar uma palavra pela outra, muito menos criar uma hierarquia entre elas, mas sim garantir que mulheres possam empreender e, ao mesmo tempo, que aquelas que desejam construir empresas encontrem condições para estruturá-las, profissionalizá-las e fazê-las crescer.
Celebrar o número cada vez maior de mulheres que colocam ideias em movimento é fundamental e criar condições para que cada vez mais delas também se reconheçam e sejam reconhecidas como empresárias é o passo seguinte.

