Campeonato Europeu adota novas diretrizes para evitar sexualização das atletas

Começou nesta segunda-feira, 10 de agosto, na Inglaterra, o Campeonato Europeu de Atletismo. Entre provas, medalhas e alguns dos principais nomes do esporte europeu, esta edição também chama atenção por uma mudança que acontece atrás das câmeras: novas diretrizes para evitar a sexualização das atletas durante as transmissões.

O documento, chamado Raising the Bar, foi lançado pela União Europeia de Radiodifusão (EBU), em parceria com a European Athletics, e traz recomendações para profissionais responsáveis pela cobertura do atletismo feminino. A proposta é bastante objetiva: fazer com que as escolhas de imagem valorizem a performance esportiva e evitem enquadramentos que direcionem a atenção para o corpo das mulheres sem qualquer relevância para a competição. 

Entre as orientações estão evitar ângulos de câmera que enfatizem determinadas partes do corpo, imagens invasivas e repetições em câmera lenta que não contribuam para mostrar técnica, desempenho ou algum aspecto relevante da prova. O guia também chama atenção para entrevistas, comentários e narrativas que reforcem estereótipos sobre mulheres no esporte.

Um dos pontos mais interessantes é que as diretrizes foram construídas ouvindo quem está do outro lado das câmeras. Atletas olímpicas como a britânica Holly Bradshaw, a sérvia Ivana Španović e a croata Blanka Vlašić participaram do processo. A EBU afirma que o material nasceu de preocupações recorrentes das próprias atletas com objetificação e representações inadequadas durante as transmissões.

Pode parecer surpreendente que, em 2026, seja necessário produzir um documento para orientar como mulheres devem ser filmadas enquanto praticam esporte e talvez seja justamente por isso que essa notícia seja tão interessante. Durante muito tempo, determinadas imagens foram naturalizadas, a câmera que permanece alguns segundos onde não precisava permanecer, o ângulo que pouco acrescenta para quem está acompanhando a prova e a imagem em câmera lenta escolhida muitas vezes é pelo corpo que mostra e não pelo movimento esportivo que ajuda a compreender.

Essa diferença na representação de homens e mulheres no esporte já apareceu em diferentes pesquisas. Um estudo que analisou 245 capas das revistas americanas Sports Illustrated e ESPN The Magazine, publicadas entre 2012 e 2016, encontrou mulheres em apenas 10% delas. A pesquisa identificou também diferenças na forma de retratá-las: enquanto os homens apareciam com maior frequência associados à prática esportiva, as mulheres eram proporcionalmente mais apresentadas de maneira objetificada. Outro estudo, dedicado a seis décadas de representação de atletas olímpicos na Sports Illustrated, também encontrou diferenças persistentes entre homens e mulheres e maior objetificação das atletas femininas. 

E aqui essa conversa começa a ultrapassar as pistas de atletismo, questionamos quanto da energia profissional de uma mulher ainda é gasto administrando a maneira como ela será vista. A atleta está preocupada com tempo, distância, técnica, estratégia e resultado. Ainda assim, mulheres ouvidas durante a elaboração das novas diretrizes relataram desconforto com determinadas posições das câmeras e com a possibilidade de imagens inadequadas durante as provas.

Em outras profissões, a situação muda, mas a administração da própria imagem continua bastante familiar. A roupa adequada para uma reunião, o receio de parecer arrumada demais ou de menos, a dúvida sobre uma fotografia profissional, o cuidado para não ser percebida como jovem demais para determinada posição ou velha demais para outra, a aparência que, muitas vezes, recebe um comentário antes da competência. Existe um esforço paralelo acontecendo enquanto muitas mulheres trabalham: além de pensar no que estão fazendo, precisam pensar em como serão percebidas enquanto fazem.

Isso não significa que aparência seja irrelevante ou que qualquer atenção dada a ela represente um problema, a questão levantada pelas novas diretrizes está justamente na escolha do que colocamos em primeiro plano. No esporte isso fica muito evidente, o corpo de uma atleta é parte fundamental da sua atividade, o que muda é o olhar direcionado a ele. A recomendação da EBU é que cada escolha de imagem tenha uma razão ligada à história esportiva que está sendo contada. Parece simples, mas é uma mudança importante de referência: antes de escolher determinada imagem, vale perguntar o que ela acrescenta à compreensão daquela performance. 

A maneira como mostramos uma mulher também ajuda a construir a maneira como aprendemos a enxergá-la. Isso vale para uma atleta diante de milhões de espectadores e também para tantas outras mulheres em espaços muito menos televisionados. As novas diretrizes não resolvem uma questão cultural tão antiga apenas mudando o posicionamento de algumas câmeras, mas ajudam a colocar luz sobre comportamentos que passaram décadas sendo tratados como absolutamente normais. E perceber que alguma coisa não precisa continuar sendo feita do mesmo jeito já é um bom começo.

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