Se vamos viver mais, nossas carreiras também precisam durar mais 

Durante muito tempo, a trajetória profissional parecia seguir um roteiro relativamente previsível: estudar, entrar no mercado, construir uma carreira, chegar ao auge profissional e, depois de algumas décadas, se aposentar. 

Só que estamos vivendo mais e isso começa a mudar também a maneira como pensamos o trabalho. O Brasil chegou ao recorde de 4,5 milhões de empreendedores com 60 anos ou mais, segundo levantamento do Sebrae. Entre os brasileiros dessa faixa etária que continuam trabalhando, mais da metade atua como empreendedora.

Há outro dado interessante: entre 2024 e 2025, a proporção de negócios criados por pessoas com mais de 60 anos a partir da identificação de uma oportunidade de mercado passou de 55% para 58%. Existe então uma geração chegando à maturidade com conhecimento, contatos, experiência e disposição para continuar produzindo de outra forma.

Ao mesmo tempo, uma pergunta precisa entrar nessa conversa: essas pessoas estão escolhendo empreender ou estão encontrando no empreendedorismo uma alternativa quando o mercado formal fecha as portas?

Provavelmente, as duas coisas estão acontecendo. A dificuldade de recolocação profissional depois dos 50 aparece como um dos fatores que levam trabalhadores a consultorias, prestação de serviços e negócios próprios. E 50% dos recrutadores ainda hesitam em contratar profissionais com mais de 45 anos, segundo dado apresentado pelo LinkedIn.

Há uma contradição aí, não é? Passamos boa parte da vida profissional acumulando justamente aquilo que o mercado diz valorizar: experiência, capacidade de decisão, repertório, relacionamento e conhecimento do setor. Depois de determinada idade, parte desse mesmo mercado começa a interpretar os anos de experiência como um problema.

Para as mulheres, a discussão ganha outra camada. Dados do IBGE mostram que, em 2024, apenas 16,7% das mulheres com 60 anos ou mais estavam ocupadas. Entre os homens da mesma faixa etária, eram 34,2%.

Esses números também refletem trajetórias profissionais diferentes, muitas mulheres das gerações que hoje chegaram aos 60 passaram períodos fora do mercado remunerado, tiveram carreiras interrompidas pelo cuidado com filhos e familiares ou construíram relações diferentes com trabalho e aposentadoria. 

Só que as mulheres que hoje têm 40, 45 ou 50 anos chegaram ao mercado em outro contexto. Estudaram mais, ocuparam novas profissões, construíram negócios, chegaram a posições de liderança e conquistaram independência financeira em proporções maiores.

E elas também estão vivendo mais, uma mulher que chega aos 50 anos pode facilmente ter pela frente mais 15, 20 ou 25 anos de vida profissional ativa. É praticamente outra carreira inteira! 

Isso muda a perspectiva. Aos 50, já não faz tanto sentido olhar apenas para quanto tempo falta para se aposentar. Há tempo suficiente pela frente para mudar de área, aprender algo novo, assumir outros papéis, transformar experiência em negócio ou até construir uma segunda trajetória profissional completamente diferente da primeira.

É nesse contexto que o crescimento do empreendedorismo depois dos 60 se torna tão interessante. Empreender pode representar uma forma de reorganizar a vida profissional, trabalhar com mais autonomia, transformar conhecimento acumulado em serviço ou desenvolver um projeto que não cabia na carreira anterior.

E existe uma vantagem em novos negócios nesse momento: aos 60, ninguém começa exatamente do zero. Pode começar um negócio do zero, mas a pessoa, não. Ela leva consigo décadas de experiências, erros, relações, conhecimentos e referências. Ainda assim, precisamos tomar cuidado para não transformar o empreendedorismo em uma solução conveniente para o etarismo.

Se profissionais experientes estão abrindo negócios porque desejam autonomia, existe uma oportunidade. E se estão fazendo isso porque deixaram de ser considerados contratáveis, existe um problema.

Talvez a longevidade esteja nos obrigando a rever a ideia de que uma carreira tem começo, meio e fim claramente definidos. As próximas gerações provavelmente terão trajetórias profissionais mais longas, formadas por diferentes ciclos, mudanças de área, períodos dentro de organizações, trabalhos independentes e novos negócios.

Pois então, se estamos aprendendo a viver mais, também precisamos construir carreiras que acompanhem essa longevidade. 

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