Cabeça inclinada, olhos na tela e poucos minutos de movimento ao longo do dia: a cena se repete em filas, no transporte e até em momentos de descanso. Com a rotina cada vez mais conectada, cresceu também a popularidade do termo Tech Neck, usado para descrever dores e desconfortos no pescoço e nos ombros associados ao uso prolongado de celular, tablet e computador.
Para o fisioterapeuta João Douglas Gil, a discussão ganhou visibilidade por um motivo real, mas costuma ser simplificada. “Existe, sim, uma associação entre passar muitas horas no celular e relatar mais dor cervical, mas isso não quer dizer que olhar para a tela, por si só, vá ‘estragar’ a coluna”, afirma.
De fato, o tempo de exposição às telas aumentou nos últimos anos por trabalho, estudo e lazer. Ao mesmo tempo, a dor cervical se tornou uma das queixas musculoesqueléticas mais comuns no mundo, com impacto direto na qualidade de vida e na produtividade. A coincidência entre esses dois cenários chamou a atenção de pesquisadores.
Estudos apontam que, quanto maior o tempo de uso de smartphones, maior tende a ser a queixa de rigidez, fadiga muscular e desconforto no pescoço e na região dos ombros. O ponto-chave, porém, é interpretar corretamente o que esses dados mostram: relação não é sinônimo de causa.
Não é só postura: é o conjunto da rotina
A ideia de que basta “corrigir a postura” para resolver o problema não encontra respaldo sólido quando analisada isoladamente. Segundo Gil, o fator que pesa mais é o contexto em que a postura se repete. “O corpo tolera diferentes posições; o que ele tolera pior é ficar muito tempo sem variar e sem se mover”, explica.
Na prática, o pescoço tende a sofrer mais quando a pessoa passa horas sentada, se movimenta pouco, dorme mal, tem baixo condicionamento físico e vive sob níveis elevados de estresse. Nesse cenário, a região cervical pode virar o elo mais vulnerável, acumulando tensão e sobrecarga ao longo do dia.
Isso também ajuda a entender por que duas pessoas com hábitos parecidos de tela podem ter experiências diferentes: a dor não depende apenas de “alavancas” do corpo, mas também de fatores como sono, preparo muscular, nível de atividade física e até a forma como os sinais corporais são percebidos e interpretados.

O que fazer para reduzir o risco
Em vez de buscar uma “postura perfeita” o tempo todo, a orientação é apostar em medidas simples que diminuam a permanência contínua na mesma posição e fortaleçam o corpo para lidar melhor com a rotina digital. Entre as estratégias mais citadas por especialistas estão:
- · elevar a tela para mais perto da altura dos olhos sempre que possível;
- · interromper períodos longos sentado e fazer pausas regulares;
- · variar posições ao longo do dia;
- · fortalecer a musculatura do pescoço, ombros e região das escápulas;
- · praticar atividade física com frequência;
- · cuidar do sono e da recuperação.
Para Gil, a tecnologia não precisa ser tratada como inimiga. “O desafio não é viver sem telas, e sim não deixar que elas nos façam esquecer que a gente mora em um corpo que precisa se mover”, destaca.
No fim, a principal mensagem por trás do Tech Neck pode ser menos sobre o celular e mais sobre um hábito básico: inserir movimento e pausas na rotina para que o pescoço não pague a conta do sedentarismo do dia a dia.

