ONU admite pela 1ª vez que mundo falhou em cumprir Acordo de Paris

Em novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a ONU admitiu que os 195 membros – países e blocos – do Acordo de Paris não foram capazes de impedir o aquecimento do planeta. A entidade aponta que o limite de 1,5ºC será ultrapassado já em 2030. E a meta para o fim do século é que a superfície da Terra fique até 1,8ºC mais quente no fim do século.

Diante do estouro inevitável desse teto, a organização internacional lançou o plano focado no gerenciamento do overshoot — termo técnico que define ultrapassar temporariamente o teto da temperatura global -. O documento indica que atingir até 1,8 °C ainda exigirá corte severo nas emissões de dióxido de carbono e metano para tentar reverter a trajetória até 2100.

Contudo, ultrapassar o novo limite degrada a capacidade dos ecossistemas marinhos e terrestres de reter carbono, o que cria um ciclo de retroalimentação climática exponencialmente mais custoso e imprevisível.

O Conceito de Incerteza Radical e a Infraestrutura Humana

Ao mesmo tempo, o planejamento das cidades demanda reformular a engenharia e a gestão de desastres globais. De acordo com Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), as projeções do PNUMA confirmam a falência dos modelos tradicionais de infraestrutura:

“Toda a infraestrutura criada pela humanidade foi feita com base numa série histórica que tinha como média 1,5 grau. A partir do momento em que você passa desse patamar, você tem que rever todo o processo de infraestrutura construído. Aquilo que não era risco passou a ser risco. Nós chamamos isso de ‘incerteza radical’, porque você não tem mais uma série histórica válida para dimensionar o perigo.”

— Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam).

Da mesma forma, a ausência de parâmetros estáveis inviabiliza projetos de drenagem urbana, redes de energia, barragens e zoneamento agrícola. Estruturas antes construídas para suportar eventos extremos esporádicos passam a operar sob um novo padrão diário de estresse climático.

O Cenário de 4 °C para 2100 e o Desafio da Adaptação

Enquanto a governança multilateral enfrenta impasses para impor metas vinculantes de mitigação, países desenvolvidos começaram a redesenhar as diretrizes internas de segurança e resiliência com cenários mais drásticos. Como a implementação de obras e políticas estruturais exige prazos longos, a antecipação de cenários tornou-se pré-requisito de gestão pública.

Recentemente, o Himalaia se viu diante de uma tragédia que ilustra indícios do cenário que já se tornou o novo normal. O derretimento das geleiras resultou numa avalanche de rochas e enchente, que inundou aldeias e comunidades ribeirinhas. O desastre matou mais de 1.300 pessoas.

Para o presidente do Proam, a falta de ação internacional coletiva deve levar países em desenvolvimento, como o Brasil, a acelerar planejamentos preventivos realistas.

Os países com maior capacidade política, como a França, já vêm trabalhando com cenário para 2100 de 4ºC de temperatura. Isto, para mobilizar a sociedade, porque a adaptação demora. Enquanto nós estamos olhando para o cenário internacional percebendo que não há vontade política, o Brasil deveria minimamente se preparar para 2,5 a 4 graus até 2100. Quando você não sinaliza o risco, você não se protege do perigo“, alerta.

Apesar do reconhecimento da falha na meta original de 1,5 °C, o PNUMA reforça que a agenda de descarbonização não pode ser abandonada. Cada fração de grau contida evita danos irreversíveis à biosfera, reduz perdas econômicas e protege populações em áreas de maior vulnerabilidade social.

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