Se estivesse vivo, Paulo Freire completaria 105 anos neste sábado, 19 de setembro. Nascido no Recife em 1921, o educador e filósofo pernambucano atravessou as fronteiras do Brasil com uma concepção de ensino que colocava a realidade do aluno no centro do processo de aprendizagem e associava alfabetização, diálogo e compreensão crítica do mundo.
Quase três décadas depois de sua morte, em 2 de maio de 1997, Freire continua presente em universidades, pesquisas e programas de formação de educadores. Desde 2012, é oficialmente o Patrono da Educação Brasileira, título estabelecido pela Lei Federal nº 12.612. Seu acervo documental também integra, desde 2017, o Registro Internacional do programa Memória do Mundo, da Unesco.
Mas a relação de Paulo Freire com a história da educação nordestina não se limita a Pernambuco nem à célebre experiência realizada em Angicos, no Rio Grande do Norte. A Paraíba teve participação direta na fase em que as ideias do educador ainda estavam sendo experimentadas e sistematizadas, no início da década de 1960.
Há registros de que, antes mesmo das “40 Horas de Angicos”, a Campanha de Educação Popular da Paraíba, a Ceplar, já utilizava propostas desenvolvidas por Freire em atividades de alfabetização de adultos em João Pessoa. Pesquisas acadêmicas apontam que educadores paraibanos mantiveram contato direto com ele e sua equipe no Recife e levaram essa experiência para bairros populares da Capital.
Alfabetizar a partir da vida do aluno
Paulo Reglus Neves Freire nasceu no Recife em 19 de setembro de 1921. Estudou Direito, mas seguiu profissionalmente pela educação. Ainda nas décadas de 1940 e 1950, passou a trabalhar com educação de adultos e começou a desenvolver uma proposta que rejeitava a simples memorização de palavras desconectadas da vida cotidiana.
Na prática, a alfabetização começava pela investigação do chamado universo vocabular dos estudantes. Palavras conhecidas no trabalho, na família e na comunidade serviam como ponto de partida para aprender a ler e escrever e, ao mesmo tempo, discutir a realidade em que aquelas pessoas viviam.
Estudos sobre a experiência paraibana descrevem três movimentos fundamentais: investigação das palavras e temas presentes no cotidiano dos alunos, discussão de seus significados sociais e problematização da realidade. Em lugar de uma relação na qual o professor simplesmente transmitia conteúdos prontos, a proposta buscava construir o aprendizado por meio do diálogo.
Essa concepção ganharia depois uma formulação mais ampla na obra de Paulo Freire, especialmente na crítica ao que chamou de “educação bancária”, modelo em que o conhecimento seria apenas depositado pelo professor no estudante.
Antes de Angicos, havia a Paraíba
A experiência que tornou Paulo Freire conhecido nacionalmente ocorreu em Angicos, no sertão do Rio Grande do Norte, em 1963. Mas a trajetória que levou até ela também passou pela Paraíba.
A cronologia organizada pelo projeto dedicado aos 50 anos de Angicos registra que, em 1962, Freire e a equipe do Serviço de Extensão Cultural da então Universidade do Recife prestaram assessoria à Campanha de Educação Popular da Paraíba (Ceplar), criada em João Pessoa para atuar principalmente na alfabetização de adultos.
Pesquisas do professor Afonso Celso Scocuglia, estudioso da educação popular e da trajetória da Ceplar, mostram que dirigentes paraibanos fizeram cursos com a equipe de Paulo Freire no Recife durante meses de 1962. Segundo esses estudos, círculos de cultura montados em João Pessoa também funcionaram como espaço de observação e desenvolvimento da aplicação das propostas freirianas.
Documentos e pesquisas históricas registram que o contato decisivo ocorreu ainda em 1962. Integrantes da Ceplar procuraram Freire no Recife e, depois da conversa, acertaram que a equipe paraibana seria preparada pelo Serviço de Extensão Cultural para aplicar o novo sistema de alfabetização. Durante cerca de três meses, integrantes da campanha viajavam aos sábados para participar da formação.
Um dos primeiros grupos da Ceplar a trabalhar com a proposta era formado por empregadas domésticas, em João Pessoa, ainda em 1962. A experiência ocorreu meses antes de Angicos, que começaria no início do ano seguinte.
Ilha do Bispo foi um dos primeiros territórios da experiência
Um dos principais cenários dessa história foi a Ilha do Bispo, em João Pessoa.
A Ceplar havia iniciado atividades na comunidade utilizando o Grupo Escolar Raul Machado. Pesquisas sobre a campanha descrevem a Ilha do Bispo daquele período como um bairro operário marcado pelo analfabetismo, pobreza, precariedade das condições sanitárias e pelos impactos provocados pela atividade industrial existente na região.
A proposta não ficava limitada à sala de aula. A campanha também discutia problemas cotidianos da comunidade, incluindo saneamento e condições de saúde, característica que se aproximava da concepção de educação ligada à experiência concreta dos estudantes.
Com a expansão do trabalho, a Ceplar chegou a outros pontos de João Pessoa. Em julho de 1963, segundo levantamento acadêmico baseado em documentos e pesquisas anteriores, cerca de 20 núcleos já funcionavam em bairros da Capital, incluindo Ilha do Bispo, Varadouro, Torrelândia, Cruz das Armas, Roger e Santa Júlia.
O relatório da Comissão Municipal da Verdade de João Pessoa também registra a atuação da campanha nesses bairros e confirma a utilização das propostas de Paulo Freire na alfabetização de adultos.
Experiência também chegou a Campina Grande
A expansão alcançou Campina Grande em 1963. A Ceplar local tinha organização própria e manteve parceria com o poder público municipal, sindicatos e entidades da sociedade civil para criar núcleos de alfabetização.
Educadores campinenses também foram preparados para trabalhar com a proposta de Freire. O depoimento da educadora Salete van der Poel, preservado em pesquisas sobre o período, relata sua participação em um curso no Recife que contou com aulas ministradas pelo próprio Paulo Freire e integrantes de sua equipe.
No início de 1964, documentos da época citados pelos pesquisadores apontavam cerca de 30 núcleos em funcionamento em Campina Grande, além de experiências em localidades próximas. Aproximadamente mil alunos frequentavam os grupos naquele momento.
Considerando o conjunto da campanha paraibana, levantamento acadêmico baseado nos trabalhos de Scocuglia aponta que a Ceplar chegou ao auge entre o fim de 1963 e o início de 1964, com cerca de 135 círculos de cultura e aproximadamente 4 mil alfabetizandos.
O que foram as “40 Horas de Angicos”
Foi em Angicos, entretanto, que a experiência comandada por Paulo Freire ganhou repercussão nacional e internacional.
A aula inaugural ocorreu em 18 de janeiro de 1963. Registros históricos do projeto apontam que 380 moradores começaram a experiência. As chamadas “40 horas” correspondiam a uma sequência de encontros distribuídos por várias semanas, e não a 40 horas ininterruptas de aula. A última delas foi realizada em 2 de abril, com a presença do então presidente João Goulart.
Na avaliação divulgada na época, cerca de 300 participantes foram considerados alfabetizados. A experiência passou a simbolizar a possibilidade de acelerar a alfabetização de adultos combinando leitura e escrita com situações presentes na vida dos estudantes.
A alfabetização possuía ainda uma dimensão política especialmente relevante naquele Brasil: pessoas analfabetas não tinham direito ao voto. Essa restrição permaneceria na legislação brasileira até 1985.
A repercussão de Angicos levou o governo João Goulart a colocar Paulo Freire à frente da preparação de um Programa Nacional de Alfabetização, que pretendia multiplicar círculos de cultura pelo país. Pesquisa publicada na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos aponta que o projeto previa mais de 60 mil círculos e a alfabetização de aproximadamente 1,8 milhão de adultos em 1964.
O plano não chegou a ser executado.
Golpe interrompe experiências e leva Freire ao exílio
Com o golpe de 1964, projetos de educação popular foram interrompidos em diferentes regiões do país. A Ceplar também foi encerrada na Paraíba, e integrantes do movimento foram investigados e perseguidos pelas autoridades do novo regime. Pesquisas históricas sobre o período mostram que as experiências de alfabetização associadas ao pensamento de Freire passaram a ser tratadas como atividades subversivas pelo regime militar.
Paulo Freire foi preso e permaneceu cerca de 70 dias detido. Depois de deixar o Brasil, passou inicialmente pela Bolívia e se estabeleceu no Chile, iniciando um exílio que duraria aproximadamente 16 anos. Também trabalhou nos Estados Unidos e na Suíça e participou de projetos educacionais em países africanos.
Foi durante o exílio que escreveu sua obra mais conhecida, “Pedagogia do Oprimido”. O manuscrito foi concluído em 1968. O livro apareceu primeiro em edições estrangeiras em 1970 e somente chegou ao Brasil em 1974, durante a ditadura.
Retorno ao Brasil e reconhecimento internacional
Freire voltou definitivamente ao Brasil em 1980. Passou a lecionar na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e na Unicamp e, entre 1989 e 1991, comandou a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, durante a gestão da então prefeita Luiza Erundina.
O reconhecimento internacional acompanhou sua trajetória. Em 1986, recebeu o Prêmio Unesco de Educação para a Paz. O documento oficial da organização justificou a escolha pelos trabalhos desenvolvidos por Freire no campo da educação e da dignidade humana.
Paulo Freire morreu em São Paulo em 2 de maio de 1997, aos 75 anos, após um infarto. Quinze anos depois, em abril de 2012, uma lei federal sancionada pela então presidente Dilma Rousseff o declarou oficialmente Patrono da Educação Brasileira.
Em 2017, a Unesco incluiu a Coleção Educador Paulo Freire no Registro Internacional Memória do Mundo, programa dedicado à preservação de patrimônios documentais considerados de relevância internacional.
Legado segue sendo pesquisado na Paraíba
Mais de seis décadas depois da Ceplar, a relação entre Paulo Freire e a Paraíba continua sendo objeto de pesquisa acadêmica.
Neste próprio ano de 2026, o Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Paraíba mantém o curso “Café com Paulo Freire – Paraíba”, dedicado ao estudo de obras como Educação como prática da liberdade, Pedagogia do Oprimido, Por uma pedagogia da pergunta e Pedagogia da Autonomia. Uma das atividades do curso é especificamente voltada à historiografia da educação popular na Paraíba e à história da Ceplar.
A data dos 105 anos também é lembrada fora do estado. Recife encerra neste sábado o XIII Colóquio Internacional Paulo Freire, iniciado na quarta-feira (16), enquanto a Faculdade de Educação da Unicamp lança neste dia 19 uma série de vídeos sobre episódios da vida do educador.
Para a Paraíba, porém, a efeméride recupera uma história particularmente próxima. Quando o nome de Paulo Freire ainda não estava associado mundialmente a Angicos ou à “Pedagogia do Oprimido”, educadores de João Pessoa e Campina Grande já discutiam suas ideias, viajavam ao Recife para aprender com sua equipe e levavam a proposta para círculos de cultura em comunidades paraibanas.
É um capítulo em que a Paraíba não aparece apenas como lugar onde o pensamento de Paulo Freire seria estudado décadas depois, mas como um dos territórios onde aquela proposta educacional começou a ser colocada em prática, testada e desenvolvida no início dos anos 1960.


