A vacinação contra o HPV é apontada por especialistas como uma das medidas de saúde pública com maior potencial de transformar a prevenção do câncer. Mesmo assim, milhões de adolescentes seguem sem proteção no Brasil e em outros países da América Latina, apesar de o imunizante estar disponível há mais de uma década.
O urologista Marcos Tobias Machado afirma que a baixa cobertura representa um desperdício de uma chance rara na medicina preventiva. “Pela primeira vez, temos a possibilidade concreta de eliminar um tipo de câncer em escala populacional, e isso depende de alcançar mais adolescentes com a vacina”, destaca.
Em países que conseguiram altas taxas de vacinação, os resultados já aparecem. Estudos no Reino Unido identificaram queda expressiva de casos de câncer de colo do útero entre mulheres vacinadas na adolescência, além de redução de infecções pelo vírus e de lesões pré-cancerosas — sinais de que a estratégia funciona quando chega a um grande número de pessoas.
No Brasil e na América Latina, porém, o cenário é de contraste: a região foi uma das primeiras a incorporar a vacina nos programas públicos, mas ainda não alcança as metas recomendadas internacionalmente. A queda na procura durante a pandemia agravou o problema e, em muitos lugares, a retomada ainda é lenta.
Uma revisão apresentada em congresso da Confederación Americana de Urología (CAU) reforçou a desigualdade na implementação da vacinação na região. O levantamento apontou que apenas Brasil, Argentina, Uruguai e Panamá incluem meninos em seus programas nacionais, enquanto países como Cuba, Haiti, Nicarágua e Venezuela não têm programas registrados de vacinação contra o HPV.
Para os autores, a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) para adoção de esquema de dose única pode ser uma virada importante para ampliar a cobertura, ao simplificar a logística e reduzir custos.
HPV também é um problema de saúde masculina
Durante anos, o HPV ficou associado quase exclusivamente ao câncer de colo do útero. Hoje, a evidência científica mostra que o vírus pode estar ligado a seis tipos de câncer: colo do útero, ânus, orofaringe (região da garganta), pênis, vagina e vulva, além de ser responsável pela maioria dos casos de verrugas genitais.
No mundo, o câncer de colo do útero provoca cerca de 350 mil mortes por ano. No Brasil, tumores associados ao HPV respondem por aproximadamente 7.500 mortes anuais, segundo dados citados no levantamento. A vacinação poderia evitar grande parte dessa carga de doença, especialmente quando aplicada antes do início da vida sexual.
Machado alerta que a imunização de meninos não deve ser tratada apenas como uma forma indireta de proteger meninas. “Vacinar meninos é uma medida de proteção direta da saúde masculina”, afirma.
Na prática clínica, diz o especialista, os impactos aparecem em homens de diferentes idades. Mais da metade dos casos de câncer de pênis no Brasil é associada ao HPV, e há ainda a preocupação com o aumento de casos de câncer de orofaringe ligados ao vírus em diversos países, especialmente entre homens — um movimento que reforça o papel da prevenção.
Dose única ajuda, mas desinformação ainda afasta famílias
O Brasil adotou o esquema de dose única para vacinação contra o HPV, alinhando-se à recomendação da OMS. A mudança tende a facilitar a execução nos serviços de saúde e ampliar o alcance do programa. Ainda assim, muitos adolescentes seguem sem a vacina no momento recomendado.
Entre os motivos citados por especialistas estão desinformação, receio de pais e responsáveis, dificuldades de acesso aos serviços e a percepção equivocada de que o HPV seria um tema restrito à saúde feminina.
O problema, lembram médicos e autoridades sanitárias, é que a proteção coletiva depende de altas coberturas: quanto mais gente vacinada, menor a circulação do vírus e maior a capacidade de prevenir cânceres e outras doenças relacionadas no futuro.
Uma estratégia global da OMS tem como meta eliminar o câncer de colo do útero como problema de saúde pública nas próximas décadas. Para isso, é necessário ampliar de forma consistente a vacinação de adolescentes, incluindo meninas e meninos.
“A vacina contra o HPV não é apenas uma pauta da ginecologia ou da pediatria. Ela também é uma pauta da urologia e da prevenção do câncer em sentido amplo”, afirma Machado. Segundo ele, o desafio é transformar a disponibilidade da vacina em proteção real, chegando a quem precisa antes que a oportunidade de prevenção se perca.

