Paraibano Ariano Suassuna é declarado Patrono da Cultura do Recife

A lei que concede o título foi sancionada na quinta-feira (24) pelo prefeito da capital pernambucana, Victor Marques.

Carlos Rocha
Carlos Rocha
Nascido em 1988, em Guarulhos (SP), Carlos Rocha é filho de paraibanos e vive em João Pessoa desde o início dos anos 2000. Graduado em Administração de Empresas pela Faculdade Paraibana, ingressou posteriormente no curso de Jornalismo na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).Atua no jornalismo digital desde 2013, com passagens por importantes veículos de comunicação da Paraíba. Na TH+ SBT Tambaú, trabalhou nas áreas de Marketing, Reportagem e Produção de Conteúdo Multimídia.Sua atuação é voltada principalmente para política, cidades e temas de interesse público, sempre com foco na apuração rigorosa e na produção de conteúdo de qualidade. Além do jornalismo, é apaixonado por leitura, cinema, séries e cultura pop.

Nascido na Paraíba e marcado desde a infância pelas manifestações populares do Sertão, o escritor e dramaturgo Ariano Suassuna foi declarado oficialmente Patrono da Cultura do Recife. A lei que concede o título foi sancionada na quinta-feira (24) pelo prefeito da capital pernambucana, Victor Marques.

A homenagem teve origem no Projeto de Lei Ordinária nº 262/2026, apresentado pelo vereador Rinaldo Júnior e aprovado pela Câmara Municipal do Recife em setembro. O texto reconhece a contribuição de Suassuna para a preservação e difusão da cultura popular e sua relação com a cidade onde desenvolveu grande parte da trajetória intelectual e artística.

Embora sua vida adulta tenha se confundido com a história cultural pernambucana, a formação de Ariano começou do outro lado da divisa. Ele nasceu em 16 de junho de 1927, na então Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa, e passou parte decisiva da infância no interior da Paraíba.

De João Pessoa ao Sertão

Ariano era filho de João Suassuna, que presidiu a Paraíba entre 1924 e 1928, função equivalente à de governador atualmente.

Depois que o pai deixou o governo, a família seguiu para a Fazenda Acauhan, então localizada no município de Sousa. O lugar hoje pertence ao município de Aparecida, no Sertão paraibano, e foi cenário dos primeiros anos de Ariano ao lado do pai.

A morte de João Suassuna, assassinado no Rio de Janeiro em 1930 em meio aos conflitos políticos daquele período, modificou a trajetória da família. Anos depois, Ariano se estabeleceu com a mãe e os irmãos em Taperoá, onde viveu entre 1933 e 1937.

Foi justamente em Taperoá que surgiram algumas das experiências que mais tarde apareceriam transformadas em literatura e teatro.

Segundo a Academia Brasileira de Letras, Ariano assistiu na cidade pela primeira vez a um espetáculo de mamulengos e a um desafio de viola. A improvisação e outras formas da cultura popular que conheceu naquele período se tornariam referências recorrentes de sua produção artística.

Taperoá deixou marcas na obra

O universo sertanejo não permaneceu apenas como memória de infância.

Personagens, paisagens, religiosidade, oralidade, humor, desafios, cantadores e histórias populares do interior nordestino atravessaram a produção de Suassuna.

Em 1950, depois de concluir Direito no Recife, o escritor voltou temporariamente a Taperoá para tratar uma doença pulmonar. Foi lá que escreveu e montou, no ano seguinte, a peça Torturas de um Coração.

A própria Fazenda Acauhan também seria recriada literariamente. Estudos e registros sobre a obra apontam correspondências entre o espaço da infância e cenários de Romance d’A Pedra do Reino, publicado em 1971.

A ligação institucional com o estado continuou décadas depois. Ariano integrou a Academia Paraibana de Letras, onde assumiu a cadeira nº 35 em 2000.

Recife virou sua casa a partir da juventude

A mudança definitiva na trajetória artística ocorreu quando a família foi para o Recife, em 1942.

Na capital pernambucana, Ariano concluiu os estudos secundários e entrou na Faculdade de Direito. Foi durante a universidade que conheceu Hermilo Borba Filho e participou da criação do Teatro do Estudante de Pernambuco.

Em 1947 escreveu sua primeira peça, Uma Mulher Vestida de Sol. Vieram depois obras como O Santo e a Porca, A Pena e a Lei e aquela que se tornaria sua criação mais conhecida, Auto da Compadecida, escrita em 1955.

Foi também no Recife que Suassuna lançou, em 18 de outubro de 1970, o Movimento Armorial, proposta artística que procurava aproximar formas eruditas de criação das manifestações tradicionais da cultura popular nordestina.

Ariano ainda foi professor da Universidade Federal de Pernambuco e ocupou funções públicas na área cultural. Morreu no Recife em 23 de julho de 2014, aos 87 anos.

Título municipal se soma a reconhecimento de Pernambuco

O novo reconhecimento do Recife não é o primeiro título de patrono concedido a Ariano em Pernambuco.

Desde 2020, a Lei Estadual nº 17.051 estabelece oficialmente Suassuna como Patrono da Cultura do Estado de Pernambuco.

Agora, uma legislação municipal também o estabelece como Patrono da Cultura do Recife.

A proposta foi aprovada em primeira e segunda discussões pela Câmara Municipal em 15 de setembro e posteriormente encaminhada para sanção. A lei foi sancionada no dia 24.

A homenagem ocorre ainda às vésperas de uma data simbólica: em 16 de junho de 2027 serão celebrados os 100 anos do nascimento do escritor. A Prefeitura do Recife já relaciona o novo título às homenagens previstas para o centenário.

Assim, o escritor que nasceu em João Pessoa, descobriu em Taperoá o mamulengo e os desafios de viola e levou essas referências consigo para o Recife passa a ocupar também, por lei municipal, o posto de Patrono da Cultura da cidade onde consolidou sua produção artística.

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