O aumento do uso de smartphones e da conectividade constante tem ampliado o debate sobre os impactos do uso excessivo de dispositivos móveis na saúde mental. No Brasil, esse comportamento aparece com destaque em diferentes levantamentos recentes.
Conforme dados da Common Sense Media, o país lidera o ranking mundial de tempo de uso de smartphones, com média de 5 horas e 30 minutos diários, acima da média global de 4 horas e 48 minutos, segundo a Digital Turbine. Outra pesquisa citada pelo site nomophobia.com indica que 60% dos brasileiros relatam sentir ansiedade quando estão sem o celular e 87% afirmam depender do aparelho para atividades cotidianas. Já um levantamento do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP estimou que cerca de 8 milhões de brasileiros (4% da população) apresentavam sinais de vício em internet.
Nesse contexto, ganha espaço o termo “nomofobia”, usado para descrever o medo irracional ou ansiedade excessiva de ficar sem o celular ou sem acesso à internet. O conceito também é conhecido como síndrome de dependência digital.
A coordenadora do curso de Psicologia da Faculdade Unime Anhanguera, Anna Rúbia Pirôpo, que também é neuropsicóloga, destacou que o avanço tecnológico é um dos fatores que contribuem para a dependência.
“A cada dia surgem dispositivos com as mais altas tecnologias e amplo acesso. Com isso, a necessidade em estar sempre conectado é reforçada socialmente, pois através disso é possível além de compartilhar e receber as mais variadas informações e situações, resolver e atender demandas como: trabalho, estudos, entretenimento, compras, dentre outros. Com isso, cria-se o hábito em estar sempre conectado e “disponível”. A todo tempo somos reforçados a emitir esse comportamento e quando percebemos que estamos distantes dele é como se deixássemos de viver ou de estar conectado com o mundo”, explica a neuropsicóloga.
A especialista ressalta ainda que essa sensação tende a se intensificar com o avanço da tecnologia, assim como outros transtornos que surgiram ou foram potencializados a partir de novas ferramentas e tendências digitais.
“A Nomofobia se faz referência as sensações observadas “no modo off-line”, ou seja, na desconexão ou no medo dela. E a partir disso, as pessoas passam a sentir ansiedade, desconforto, nervosismo, angústia, pânico, além de sintomas físicos como aperto no peito, taquicardia e suor frio”, pontuou.
Ainda de acordo com Anna, a nomofobia é um fenômeno complexo e as causas e efeitos ainda estão sendo amplamente estudados.
“No entanto, até o momento, acredita-se que seja uma combinação de fatores, como baixa autoestima, níveis elevados de ansiedade e impulsividade. Alguns sinais de alerta desse sentimento incluem a necessidade constante de ter um dispositivo para recarregar a bateria, o monitoramento constante do aparelho em busca de notificações, a dependência do celular mesmo em momentos inadequados, como perto da hora de dormir, a ansiedade, angústia e nervosismo que surgem quando o celular fica inutilizável por qualquer motivo, o medo de ficar desconectado e a restrição das atividades apenas a locais onde é possível manter a conexão”, declarou.
O diagnóstico da nomofobia costuma ser avaliado a partir de critérios utilizados no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) para fobias específicas. No entanto, alguns estudiosos defendem que o termo seja incluído no DSM-V como uma entidade diagnóstica que representa um vício tecnológico, devido à semelhança dos sintomas com a síndrome de dependência de substâncias.
Entre os sinais mais frequentemente associados à dependência patológica do celular e da tecnologia estão:
- nervosismo e irritabilidade;
- agitação;
- ansiedade;
- taquicardia;
- sensação de angústia;
- sudorese;
- medo intenso em situações de desconexão.
Esses sintomas podem impactar diretamente a saúde e o bem-estar, interferindo na rotina pessoal, social e profissional do indivíduo.
Para auxiliar na redução do uso excessivo do celular e minimizar possíveis impactos, a neuropsicóloga recomenda algumas estratégias:
- Limitar o uso do celular, especialmente antes de dormir e ao acordar, para garantir uma boa qualidade de sono;
- Evitar o uso do celular durante as refeições, promovendo uma alimentação consciente;
- Desenvolver estratégias para restabelecer o contato com o mundo real, buscando interações interpessoais e limitando o uso de tecnologia nesses momentos;
- Quando necessário, procurar ajuda com profissionais especializados.
Por fim, Anna Rúbia Pirôpo frisa que, embora os benefícios da tecnologia sejam inegáveis, é fundamental buscar equilíbrio no uso dos dispositivos digitais, a fim de prevenir e reduzir possíveis impactos na saúde mental. Ela também enfatiza a importância de não encarar os aparelhos tecnológicos como uma extensão de si mesmo e a necessidade de um uso consciente e responsável.



